domingo, 14 de setembro de 2014

LUIZ BASQUEIRA

Natural de Muzambinho, Minas Gerais, onde nasceu em 27 de setembro de 1910, filho de João Bascheira e de Zenóbia  Bascheira, veio para São Paulo e adentrou aos quadros funcionais da Sorocabana, e logo, começou a participar das atividades das entidades sindicais representativas da categoria, tornando-se em pouco tempo, em importante liderança ferroviária, respeitado pelos companheiros em decorrência de suas firmes intervenções em defesa dos direitos de seus companheiros, temido pela direção da empresa e constantemente monitorado pela polícia política. Inicialmente, buscaremos fazer um resumo das anotações constantes a seu respeito no FUNDO DOPS, do Arquivo Histórico de São Paulo, o que com certeza ajudará em muito para traçar o perfil deste líder sindical ferroviário.
A primeira anotação data de 1947, baseada em relatório fornecido pela EFS, sobre a greve irrompida naquela estrada, em princípios de dezembro de 1947, constando que na residência de Bascheira tem sido realizadas sucessivas reuniões com a intenção de se articular movimento grevista, sendo que em 6 de dezembro de 1947, onde prestou depoimento por estar envolvido com movimentos grevistas. Volta a ser citado em fevereiro de 1949, informando que o nosso protagonista era o secretário geral do Partido Republicano na cidade de Barueri, Estado de São Paulo e já em junho de 1951, era citado como filiado a União Democrática de Carapicuíba, que segundo a polícia, reunia-se nas residências de elementos reconhecidamente comunistas, dentre eles, Alcides Caldeira e Luizinho de Tal.
As anotações dando conta de suas atividades iam aumentando em quantidade, e em relatório reservado de 1º de dezembro de 1952, era citado como ferroviário comunista residente em Carapicuíba e que teria sido um dos oradores de comício realizado em Barueri, da coligação PTB-PTN-PSD, de propaganda dos candidatos a prefeito, vice e vereadores e logo no início de 1953, informavam que esteve em Campinas, na companhia de outros dois ferroviários da Sorocabana, hipotecando solidariedade aos ferroviários da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que estariam articulando movimento de reivindicação, sendo que em seguida, outro informe reservado, dava conta que juntamente com outros moradores de Carapicuíba, notórios comunistas, encaminhara para Moscou, um memorial de votos de pesar pelo falecimento de Stalin, ocorrido em 04 de Abril de 1953.
O monitoramento de suas atividades era constante, sempre dando conta de sua presença em reuniões, assembleias, onde invariavelmente fazia uso da palavra, e em julho de 1953 era anotado que fazia parte da Comissão Iniciativa ao III Congresso Sindical Mundial que seria realizado em Viena, na Hungria em outubro do mesmo ano e já na condição de delegado brasileiro a este conclave internacional, concedia entrevista à imprensa, afirmando que os ferroviários da Sorocabana lutavam pelo aumento salarial e pela reabertura de seu sindicato. Em outubro de 1953, duas anotações engrossavam seu prontuário no DOPS, a de que teria viajado para Viena, salientando que o DOPS alertou pela imprensa, os meios sindicais de São Paulo, como também aqueles que ao mesmo aderiram, ressaltando sua finalidade tipicamente comunista. E vai adiante o relatório, afirmando que podiam assegurar, será o de exclusivamente reforçar o credo vermelho aos que já militam nas hostes comunistas e politizar aqueles que ali comparecerem, sem qualquer linha politica, procurando assim aumentar seu número de simpatizantes ou mesmo militantes. A outra informação deste mês é que Bascheira tinha sido eleito como 1º secretário na nova diretoria da UNIÃO.
Em dezembro, as anotações eram de que compareceria a Assembleias dos ferroviários da Sorocabana em Bernardino de Campos e Assis, e informando que mesmo estando no exterior, havia sido eleito vereador em Barueri e que estaria tentando se infiltrar no PSD – Partido Social Democrático – de cujo tesoureiro era amigo pessoal e colega de serviço. Já em janeiro de 1954, era considerado como um dos que estavam se esforçando muito, para maior brilho e representatividade do IV Congresso Nacional dos Ferroviários. Informação de que estivera em Viena era reiterada em diversos informes e em 24 de março de 1954 era citado como um dos frequentadores de um curso de preparação de dirigentes sindicais, realizado em Bucarest.
Em 19 de maio, deste mesmo ano, o DOPS de São Paulo, comunicou as Delegacias Regionais do interior, que nosso protagonista era um dos que estava percorrendo o interior, em busca de adesões para o Pacto de Ação Comum ou Frente Única dos Trabalhadores ou ainda, Pacto Sindical, de ação nitidamente comunista. Logo em seguida, no início de junho, era informado que a UNIÃO, era uma entidade dirigida por elementos comunistas e tinha como secretario geral, o militante comunista Luiz Bascheira, voltando a citar suas viagens a Viena e Bucarest, além de informar que o mesmo procurava agitar de forma constante a classe dos ferroviários, seja lutando por melhores salários ou em briga continua com a direção da estrada.
Em 10 de maio de 1954, foi realizada Assembleia da UNIÃO, na Alameda Olga, 102, com a finalidade de serem discutidas reivindicações dos ferroviários, entretanto, segundo Bascheira que presidiu o encontro, a direção da Estrada buscou  de todas as formas esvazia-lo, chegando a disponibilizar neste mesmo dia, trens gratuitos para os ferroviários passearem com suas famílias, chegando a organizar um grande pic-nic na cidade de Sorocaba. Nosso protagonista, assim abordou o assunto:
“ Enquanto este punhado de gente está aqui, tratando dos interesses da classe, que aliás é muito grave, outros mostram-se inteiramente alheios ao assunto, pretendendo assim, nesta desunião, porem, por isso não deve se cessar a luta, pelo contrario, devemos animá-la a cada vez mais, mostrando aos companheiros faltosos a necessidade de nossa união para obtermos êxito em nossos pleitos...
Os relatórios dos policiais da repressão política iam aumentando de forma considerável seu prontuário, como se estivessem armando o bote para prendê-lo, como normal para os ativistas sindicais e dos movimentos populares, sendo que  em 11 de agosto de 1954, era citado como responsável pelo movimento em busca de aumento salarial dos ferroviários da Sorocabana e que na condição de orador, no auditório da rádio América, teria dito, entre outras coisas, o seguinte:
“ Nós sabemos perfeitamente que quem paga é o povo. Sabemos também que quando nos dão uma coisa com uma mão, nos tiram com a outra. Mas o grande culpado desta situação, de tudo isso que ai está é a má administração do atual diretor da Estrada de Ferro Sorocabana, e esta má administração resulta em muito menos benefícios para os ferroviários”.
Em 24 de maio de 1955, voltava a ser citado em relatório confidencial como sendo um dos lideres sindicais que estiveram presentes em uma reunião realizada na sede da Cruzada Humanitária Pela Proibição de Armas Atômicas, para tratar da realização de um congresso ou conferencia da Paz, que seria denominado de Congresso ou Conferencia dos Operários pela Paz e logo em seguida, participou de uma reunião da UNIÃO, realizada na sede do Clube da Estrada de Ferro Sorocabana, localizado à rua Dr. Álvaro Soares, 208, em Sorocaba, ocasião em que foram discutidas o aumento da mensalidade dos sócios da UNIÃO, sobre passe-livre e o 4º Congresso Nacional dos Ferroviários.
Novamente, era citado na condição de presidente da Comissão de Previdência Social , do 4º Congresso Nacional dos Ferroviários, realizado na cidade de Campinas, em agosto de 1955, foi um dos oradores e segundo o agente policial, fazendo ampla demagogia, teria denunciado:
“ que em apenas oito meses. Ocorreram quatro explosões de caldeiras de locomotivas da Estrada de Ferro Sorocabana, resultando na morte de vários ferroviários e o grande culpado é o diretor da Estrada, por utilizar material antiquado e imprestável, que são as causas principais destes desastres...”.
Abrindo um parêntese, interessante deixar registrado que os agentes policiais não relatavam a conduta pessoal de nosso protagonista, talvez para não escreverem e deixarem registrado que era dotado de espirito de camaradagem, solidariedade e suas atividades tanto politicas como sindicais, eram revestidas da ética, da moral e principalmente da coerência. Isto para não falar do esposo e pai, diuturnamente preocupado com o bem estar da família. Entretanto, estas virtudes do ser humano, não eram registradas pelos agentes policiais, que buscavam monitorar tão-somente as atividades do “perigoso” comunista.
Em 24 de novembro de 1955, o relatório informa que além de 1º secretario da UNIÃO, era também presidente da União Nacional dos Ferroviários do Brasil, entidade fundada durante a realização do 4º Congresso Nacional dos Ferroviários, em Campinas, no ano de 1954, e que teve a seguinte diretoria eleita: LUIZ BASQUEIRA, da Sorocabana, como presidente; ANTONIO DUZZO da Santos-Jundiaí e ANTONIO TEOFILO, da Rede Sul Mineira de Viação como secretários; NABOR DA GRAÇA LEITE, da Noroeste e JOÃO VERGARA, da Companhia Paulista, como tesoureiros. Que a diretoria, foi empossada na reunião de encerramento do congresso, presidida pelo senhor Moacir Prado e segundo o informe policial, todos os integrantes desta diretoria eram comunistas e que os discursos realizados no encerramento, foram muito violentos.Neste mesmo mês, voltam a registrar sua presença em Viena, em evento organizado pela Federação Sindical Mundial, organismo dirigente do comunismo, no setor sindical. Registrava também que era um dos líderes sindicais que se manifestaram de forma contraria a prorrogação do Estado de Sítio, conforme publicação de entrevista no jornal HOJE de 22 de Janeiro de 1956 e que era um dos comunistas que estavam percorrendo vários sindicatos, visando organizar as manifestações a serem realizadas contra a prorrogação do Estado de Sítio. Em 8 de fevereiro de 1956, nova informação reservada:
“...consta que Guarino Fernandes dos Santos, presidente da União dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, que se encontra a soldo do PCB, está articulando com Roberto Morena e dirigentes da UGT, com a cumplicidade de Luiz Bascheira, agitações nos meios ferroviários e o que é seu principal objetivo é a reabertura do Sindicato dos Ferroviários da Sorocabana”.
Sempre qualificado como perigoso e agitador, o nosso protagonista, continuava em um trabalho incessante em defesa dos ferroviários e de organização do Partido Comunista Brasileiro e em março de 1956, era anotado em sua já extensa ficha policial que havia concedido entrevista ao jornal HOJE em 10 de março, onde entre outras coisas, declarara que a anistia deveria ser irrestrita beneficiando também o “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes e fazendo jus ao dito popular que diz “ que dedo duro e tiririca dão em qualquer lugar”, neste mesmo mês de março, nova anotação em sua ficha:
“Em representação endereçada a este DOPS, em março de 1956, a diretoria da Cooperativa de Consumo dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana alerta-nos contra a chapa encabeçada por Guarino Fernandes dos Santos, dizendo ser composta em quase a sua totalidade de elementos comunistas, esclarecendo que, entre o programa de seus componentes, consta que seria exigido dos  fornecedores da Cooperativa uma contribuição de 5% de todas as faturas, que se destinaria ao fundo de manutenção do PCB. Exemplificando, os signatários citam que, quando o conhecido comunista Luís Galvão Pacheco, exercia as funções de diretor-gerente da referida Cooperativa, em 18 de setembro de 1953, entregou a Luiz Bascheira, a importância de Cr$ 20.000,00 ( vinte mil cruzeiros) para que este pudesse representar o PCB no celebre Congresso de Viena e até a presente data, este valor não foi reembolsado aos cofres da cooperativa”.
Na realidade, a Cooperativa estava sofrendo com a má administração, sem recolher encargos trabalhistas de seus funcionários e sem credito, por dever vultosa importância a seus fornecedores, e seus dirigentes, sabendo do prestigio que os dirigentes da UNIÃO desfrutavam no meio ferroviário, buscavam a interferência da polícia politica para barrar a candidatura daqueles que certamente seriam vitoriosos no pleito, desbancado aqueles que faziam do estabelecimento uma continuidade da sala de suas casas. Vamos continuar com as atividades de nosso protagonista, devidamente anotadas pela polícia.
Em julho de 1956, foi informado que voltara a se eleger como secretario da UNIÃO, foi um dos subscritores de um manifesto denominado APELO AO POVO PAULISTA, como membro da Comissão Paulista Pró Imprensa Popular, por ocasião do lançamento em São Paulo, da campanha em favor da mesma, em conformidade com publicação feita pelo jornal NOTÍCIAS DE HOJE, de 29 de julho de 1956. Em setembro, novamente era anotada a sua viagem a Viena, com o informante afirmando que além de Viena, Bascheira teria visitado Moscou.
Continuando com suas atividades, participou de reunião realizado pelo PACTO DA UNIDADE realizou em 3 de setembro de 1956, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, onde em discurso, colocou aos presentes:
“...dizendo que o governo estava pretendendo tornar as ferrovias oficiais em sociedades anônimas, o que traria grande prejuízo aos seus funcionários e ao povo em geral. Afirmou que, caso o governo persistisse em tomar esta medida, deveria ser formado um movimento grevista de protesto. Em seguida, cientificou os presentes que solicitara à administração da EFS a concessão de três vagões para o transporte de trabalhadores da Sorocaba para o comício programado para o dia 6 próximo.”
Em dezembro deste ano, era registrado que elementos de proa do PCB, dentre eles o professor João Taibo Cadorniga, manifestaram-se sobre a organização do partido, naquela época. Assim é que em seu tópico final o relatório diz que Luiz Bascheira, Raphael Martinelli e Antonio Bozzo, além de outros líderes ferroviários, são dirigentes do Comitê Regional dos Ferroviários, coletivo este, do PCB. Já em abril de 1957, a policia registrava que Luiz Bascheira e João Batista Domene, estariam sendo afastados da diretoria da UNIÃO, por estarem sendo considerados como os responsáveis pelo fracasso das últimas pautas reivindicatórias.
Esta anotação, não condizia com a realidade, pois Bascheira continuou a participar normalmente das atividades da UNIÃO e com data de 28 de agosto de 1957, encontramos o seguinte apontamento:
“ Na reunião que a UNIÃO realizou dia 28.04.1957, em Sorocaba, Luiz Bascheira discorreu sobre a transferência das ferrovias da união federal para companhias particulares. Aprofundou-se em deduções, envolvendo todos os ferroviários, tanto da União como das autarquias estaduais, dizendo que logo que as companhias particulares assumissem o comando das ferrovias, perderiam os ferroviários todos os benefícios que até então haviam adquirido através de lutas. Concitou os trabalhadores para, unidos, combaterem numa luta sem tréguas e dentro de um programa preestabelecido, fazer com que fosse aceito pelos deputados e senadores o ponto de vista dos ferroviários, rejeitando o veto do Presidente da República. Usando ainda da conhecida demagogia comunista, pediu a todos os ferroviários que, individualmente, escrevessem e telegrafassem a deputados federais e senadores, com a finalidade de criar um clima de confusão.”
Volta a ser alvo de relatório, com a informação de que era um dos integrantes da comissão organizadora da delegação paulista ao IV Congresso Sindical Mundial, constituída em ato solene realizado no salão de festas da Associação Paulista de Imprensa, em 13 de junho de 1957, em conformidade com publicação feita pelo jornal NOTÍCIAS DE HOJE do dia seguinte e em 20 de outubro de 1957, era constatada a realização de Assembleia da UNIÃO, nas dependências do Cine Líder em Sorocaba, com a finalidade de serem discutidas reinvindicações da classe e segundo o informe policial, dentre aqueles que estiveram presentes e tiveram atuação destacada, encontrava-se Luiz Bascheira que fez uso da palavra para criticar a diretoria da Estrada e o senhor governador. Em novembro, era mencionado de que havia sido escolhido como integrante de uma comissão de ferroviários, que deveria ser recebida pelo Governador do Estado em 25 de outubro, com a finalidade de apresentar as reinvindicações dos ferroviários, entretanto, a audiência fora cancelada e a UNIÃO lançou um manifesto onde critica a posição do governador, reafirmando a posição da entidade classista de continuar a luta, em busca da conquista de seus direitos e este manifesto, acabou provocando a convocação de Bascheira para prestar depoimento no DOPS, vamos ao resumo:
“ Em 11.11.1957, prestou declarações neste Departamento, dizendo ser falso ter no dia 25 de outubro último, ou qualquer outro qualquer, em lugar público, usado expressões desairosas ao senhor governador do Estado, afirmando ainda que tinha conhecimento de que havia documento que o comprometia junto ao atual diretor da EFS. Em seguida, passou a esclarecer como se manifestara naquele dia e como tudo se passou...
...que, em assembleia realizada no Clube Royal, na Barra Funda, com a presença do vice-governador, General Porfirio da Paz, o declarante fez discurso, em que criticou o atual diretor da Estrada, invocando argumentos que foram anotados por aquela autoridade...
- que, a denúncia contra ele formulada ocorreu como “fogo de encontro” em virtude das denúncias que tem realizado contra o diretor da Estrada, partindo de elementos que a todo custo querem se firmar em cargo de comando, sem muitas vezes, terem capacidade profissional para tanto...”
Em novembro ainda, no dia 21, esteve presente a mesa redonda contra a fome e a carestia, realizada no auditório da Biblioteca Municipal e ao fazer uso da palavra, denunciou:
“...lamentou a retirada de grande quantidade de vagões da EFS, em prejuízo ao transporte de açúcar dos comerciantes e do próprio povo, agravando ainda mais a situação critica que atravessa a sociedade”.
No final deste ano, em 22 de dezembro, realizou-se nova assembleia dos ferroviários no lendário Cine Líder de Sorocaba e novamente, Bascheira se pronunciava:
“ ... que o governador negou-se a receber uma comissão de 150 ( cento e cinquenta ) representantes da classe, elogiando o governo passado e falando mal do atual, afirmando que o governador tirou o pão da boca de seus filhos ao invés de dar o abono de natal”.
Logo no inicio de 1958, em 10 de janeiro, mais um relatório confidencial era anexado ao seu prontuário:
“ ...os comunistas trabalhavam incansavelmente para o pleno êxito da greve do dia 15. Que o Partido Comunista vinha testando sua força para as próximas eleições, contando para tanto com o apoio de políticos que desejam colocar-se em evidencia, para o máximo aproveitamento no próximo pleito. Alerta ainda o relatório que se o PCB conseguisse levar a greve para as industrias que já estavam pagando o aumento concedido pela justiça, seria uma grande vitória e que nestes preparativos vinham se destacando sobremaneira alguns líderes sindicais, entre os quais, Luiz Bascheira, comunista, agitador, líder dos ferroviários da Sorocabana. Esteve no 3º Congresso Sindical Mundial bem como visitou a Alemanha Oriental e a Polônia. Atualmente é o segundo tesoureiro do Pacto de Unidade Intersindical.”
Sempre citada sua viagem a Viena, com uma curiosidade, com o passar do tempo, iam aumentando seu roteiro. Inicialmente, acrescentaram Bucarest, depois Moscou e agora, Alemanha Oriental e Polônia.
Coisas da repressão!
Agentes policiais costumavam fantasiar seus relatórios, com a única finalidade de mostrar serviço e com isso, conseguir alguma vantagem pessoal, e muitas vezes imputavam fatos inexistentes para os já conhecidos comunistas. Vamos continuando com as atividades mapeadas de nosso protagonista. Segundo relatório de 3 de fevereiro de 1958, referente a diretoria da EFS, quando da nomeação do senhor Orlando Drumond Murgel como diretor, ferroviários que compunham diversos grupos esperavam, uns, a nomeação do engenheiro Humberto Nobre Mendes; outros, a do engenheiro Armando Zeneu; e outros, de outros engenheiros. O novo diretor nomeou logo como diretor administrativo o engenheiro Borba. O engenheiro Nobre Mendes não apreciou devidamente esta nomeação e convocou, para uma reunião que se realizou no último dia 31, dois funcionários de sua confiança: Luiz Bascheira e Luiz Lapetra, ambos notórios comunistas, o que leva a crer que este engenheiro mantem ligações com o PCB.
Continuavam seus informes, e um tópico de um relatório datado de 29 de abril de 1958, chamou a atenção do DOPS/Sp.:
“ ...em conversa com um líder sindical, passou a desabafar contra os comunistas, afirmando que não mais compartilharia com os mesmos, pois até então, só vinham tentando tapeá-lo, colocando-o sempre para trás, em todos os resultados positivos de todos os movimentos até então, por ele liderados. Adianta o mesmo relatório que Luiz Bascheira manifestara o firme proposito de dar combate ao comunismo, dentro da União dos Ferroviários da Sorocabana, para tanto indo, inclusive, se candidatar como presidente da chapa de oposição aos “vermelhos”, nas próximas eleições daquela entidade associativa.”
Conversando com os poucos sobreviventes daquela época, estes garantem que o informe policial é falso, não condizendo com a realidade, pois reconhecem em Bascheira a coerência ideológica e que nunca, renunciou aos seus princípios, mesmo quando sofreu perseguições, até insanas, por parte da repressão policial, em decorrência de suas convicções politicas e ideológicas. As próprias anotações que se seguiram a esta, a desmentem, muito embora em alguns, tenta-se descontruir a imagem de Bascheira. Vamos lá:
O fato de ter almoçado com o governador Jânio Quadros, em 21 de julho de 1958, serviu para elaboração de mais um informe reservado:
“...dando conta que ali estivera para almoçar com Jânio e o Secretario de Trabalho, Indústria e Comercio de São Paulo,  Paulo Marzagão, e na companhia de outros líderes sindicais: LUIZ MENOSSI, GUARINO FERNANDES DOS SANTOS,NELSON RUSTICI, GABRIEL GRECCO, outro líder de Santos, mais o tesoureiro da Carris-urbanos e alguns mais. Assim que o senhor governador chegou e os cumprimentou, foi logo desabafando, depois de haver apresentado, como aperitivo a cada um dos presentes, um cálice de aguardente do interior, sobre a qual se referiu ( para começo de conversa), dizendo:
Acabo de chegar do interior, e esta eu trouxe de um amigo de lá. Porem, estou muito aborrecido, pois, justamente por quem o governador mais tem procurado fazer, nesta sua gestão, é de quem mais ingratidões está recebendo, agora que ele precisava do apoio de todos os seus amigos, para a vitória de seu candidato, o professor CARVALHO PINTO.
E, voltando-se a LUIZ BASCHEIRA, se desabafou:
A SOROCABANA, a quem tudo dei e fiz, não existe para o senhor Jânio Quadros, pois que ela, apenas se resume ( como força de movimentação) na Barra Funda, onde numa prévia eleitoral recente, o senhor Carvalho Pinto ficou aquém do senhor Adhemar de Barros, a mais de 150 votos. Onde estão os meus amigos da Sorocabana?
Então, LUIZ BASQUEIRA tentou retrucar ao senhor Jânio Quadros mas, GABRIEL GRECCO fê-lo desistir por um toque no braço.
Mesmo com o desabafo de Jânio, os sindicalistas indicaram e o governador de pronto atendeu, nomeando os senhores Nelson Rustice e Gabriel Grecco, para exercerem as funções de oficial de gabinete do Secretario do Trabalho.
Logo em seguida, um novo apontamento informa que a classe ferroviária estaria descontente com Guarino Fernandes dos Santos e Luiz Bascheira, com os ferroviários alegando que depois que esses dois se deixaram envolver pelo inteligente tato politico do senhor Jânio Quadros, nunca mais ocorreu unidade na classe ferroviária. Em 15 de Abril, novas referencias sobre uma ruptura entre Guarino e Bascheira:
“ ....informa-nos que Guarino Fernandes não se dá bem com Luiz Bascheira e que, numa palestra entre ambos, sobre a atitude que tomaria a UNIÃO, com relação a greve dos ferroviários da Paulista, Guarino teria dito ao marginado que ele                      ( Bascheira) deveria era preceder a uma autocritica perante o PCB, devido as suas reprováveis atitudes dentro dos meios ferroviários.”
Informam ainda que em 17 de Maio de 1959, na condição de delegado da UNIÃO representando a Delegacia Regional da entidade, da cidade de Carapicuíba, esteve presente a uma Assembleia realizada na cidade de Sorocaba, ocasião em que subscreveu um manifesto dirigido aos ferroviários, onde constavam as reivindicações e uma tabela de salários, atualizada com os índices de aumento solicitados e que ao utilizar-se da palavra proferiu violento discurso atacando o diretor da EFS e o senhor governador do Estado. O informante policial ainda dizia que o movimento reivindicatório dos ferroviários, estava sendo fortemente agitado pela UNIÃO, tendo a frente, o seu presidente Guarino e o agitador Luiz Bascheira. Em 8 de julho de 1959, voltam os ferroviários a se reunir nas dependências do Cine Líder em Sorocaba, ocasião em que foi colocado para apreciação da categoria, a proposta do senhor governo para atendimento dos pleitos da categoria. Os debates se prolongaram, fazendo-se ouvir diversos oradores sobre a ordem do dia. Antes do encerramento da Assembleia. Bascheira utilizou-se da palavra, abordando assunto atinente a carestia de vida, propondo mesmo uma participação mais ativa da classe ferroviária na campanha contra a carestia.
Em 11 de junho de 1962, vivíamos em um regime democrático, entretanto, manifestações públicas deveriam ser autorizadas pelo DOPS, sob pena de serem reprimidos. Geralmente, os relatórios localizados no FUNDO DOPS do Arquivo Histórico, não trazem o nome de quem o elaborou, como se estes tivessem o medo de represálias no futuro, entretanto, este é assinado pelo investigador de policia de Osasco, Pedro Osório dos Reis. Vamos a ele:
Ilmo. Sr.
Dr. Delegado Titular da 24ª Circunscrição Policial
Osasco
Torno do conhecimento de V. Sa., o fato ocorrido às 19,10 hs. do dia 8 do corrente, o qual passarei a relatar. Segundo as instruções de v. s., no sentido de bem policiar este município de Osasco, ao passar pelo largo João Pessoa ( largo da estação), onde existe um palanque, permanentemente armado, notei que um número aproximado de 50 pessoas, assistia a um comício que estava sendo realizado, sob o tema de ‘Abaixo a Carestia”; tendo em vista que tais realizações necessitam de aprovação do DOPS, solicitei do membro responsável pelo comício, o individuo JOSÉ DE ARAUJO PLÁCIDO, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, a citada autorização policial. Todavia, a minha solicitação foi recebida com certa rebeldia, sobretudo por parte de seu responsável, sem que para isso houvesse motivo justificado. Este mesmo elemento assegurou-me verbalmente, que possuía autorização competente para realizar encontros políticos daquele gênero, em numero de 15. Contudo, a situação de seus circunstantes agravou-se mais, quando por rápido telefonema, comuniquei-me com o plantão do DOPS, o qual me informou que nenhuma autorização havia sido emanada por parte de qualquer autoridade do citado departamento. Vale salientar que, durante o transcorrer do comício, vários oradores tomaram da palavra, podendo citar entre eles: GENTIL CORREA NEVES, presidente do Sindicato dos Padeiros; LUIZ BASQUEIRA, ferroviário, ex-vereador de Carapicuíba; PEDRO ALVES DE OLIVEIRA, CONRADO DEL PAPA, AIMORÉ DE MELLO DIAS, vereador de Osasco; LINO FERREIRA DOS SANTOS, e outros, que não foi possível anotar, os quais em suas explanações demagógicas concitavam o povo a se rebelar contra os poderes constituídos, bem como imputavam ao governo estadual vigente, a atual falta de feijão, alegando, ainda que por covardia, o governo estadual havia entregue ao povo, digo, o povo a mercê dos exploradores. Dentre os citados oradores, muitos deles são sobejamente como agitadores e partidários intransigentes o comunismo, fato este que por sí só, serve ara caracterizá-los.
Testemunhas arroladas no local: Luiz Bastos, Henrique Alonso, Otavio Benedito Munhoz, Aristides de Paula, João Batista de Paula Pádua, Euclides da Silva, João Merquesian, Valmir Pereira Lima.
É o que me cumpre informar,
São Paulo, 11 de junho de 1962.
O encarregado dos investigadores
Pedro Osório dos Reis
Em 10 de maio de 1963, informam que em uma reunião de cabineiros da EFS, realizada no dia anterior, Bascheira, na condição de membro da UNIÃO, presente a mesma, procurou incentivar os cabineiros a entrarem em greve e procurou jogar esta classe contra a dos maquinistas, afirmando que estes estiveram com o governador, a quem propuseram “furar” a greve, casos fossem lhe concedidas três letras de promoção. Finalizando esta etapa de pré-golpe militar de 1º de Abril de 1964, era ainda informado que fez parte da mesa diretora dos trabalhos do II Encontro Estadual dos Ferroviários, realizado na cidade de Campinas, de 13 a 15 de junho de 1963, tendo falado aos presentes.
Consta ainda que seu nome estava relacionado no pedido de informações, formulado pelo major Ary Leonardo Pereira, encarregado de Inquérito Policial Militar, em Barueri, destinado a investigar as atividades da SUPRA – Superintendência da Reforma Agraria- ,  cujo oficio datado de 24 de maio de 1964, informa que Bascheira esta indiciado neste IPM, destinado a investigar as atividades da SUPRA – Superintendência da Reforma Agraria- no município e em 14 de abril de 1964, consta como preso nas dependências do DOPS de São Paulo.
Em 19 de setembro de 1964, por decreto do governador Adhemar Pereira de Barros, com fundamentação no decreto 43.217 de 16 de Abril de 1964 e no artigo 7º,  paragrafo 1º, do Ato Institucional de 9 de Abril de 1964, foi demitido da Estrada de Ferro Sorocabana.
Voltou a ser preso em 14 de junho de 1965, permanecendo preso por alguns dias, novamente no DOPS, prestando declarações e sendo liberado, sendo que o Inquérito para se apurar atividades comunistas na UNIÃO acabou sendo arquivado.
Em 10 de Abril de 1965, o DIÁRIO POPULAR publicava que o promotor da Justiça Militar,  Durval Ayrton de Moura Araújo havia solicitado a prisão preventiva de nosso protagonista e de diversos outros militantes políticos, do campo da esquerda, por estarem em movimentos subversivos na região de Osasco e em especial, a FRENTE NACIONALISTA criada em 1958 que tinha como coordenador nacional Leonel de Moura Brizola. Como justificativa para a solicitação da prisão preventiva, o promotor arguia que as atividades dos indiciados em Carapicuíba e Barueri, não deixavam duvidas a respeito de seus propósitos a serviço do comunismo internacional, difundindo doutrina marxista-leninista e desejando modificação da ordem política e social do país.  Em 11 de janeiro de 1966, o mesmo jornal publicava que um Conselho Especial de Justiça Militar, presidido pelo tenente-coronel Arnóbio da Cruz Payao e funcionando como juiz, o auditor José Tinoco Barreto deu inicio ao sumario de culpa em referido processo, onde estavam indiciados, além de Bascheira, o capitão da reserva  Américo Duarte, o prefeito de Carapicuíba Antonio Faustino dos Santos; o professor Fernando Willi Bastos Franco; Amos Meucci, Moisés Gonçalves Martins, Nelson Isidoro da Silva, Vitor Figueira, Walter Ferreira do Nascimento. Em audiência, foram ouvidas as testemunhas de acusação: Capitão Artur José Valter Varlangieri, o padre Danilo José de Oliveira e o diretor do Ginásio Estadual de Carapicuíba, professor Antonio Felipe.
Em 20 de Agosto de 1966, segundo noticia veiculada no jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, o Conselho Especial de Justiça Militar da 2ª Auditoria Militar de Guerra, absolveu Luiz Bascheira por unanimidade. Indiciado em IPM instaurado pelo comando do Grupo Bandeirantes, do II G Can antiaéreo, por estar enquadrado no artigo 2º da Lei de Segurança Nacional, acusado de ter sido o fundador em Carapicuíba da FRENTE DE LIBERTAÇÃO NACIONAL e FRENTE DE MOBILIZAÇÃO POPULAR e, em Tamboré, so Sindicato dos Trabalhadores Rurais, entidades estas ligadas aos comunistas. Ao tomar conhecimento da absolvição, o Promotor da Justiça Militar, Durval Airton de Moura Araújo, anunciou que irá recorrer da decisão, por não se conformar com a absolvição dos notórios comunistas. A sentença salienta que não pode ser considerado crime o fato de Walter Ferreira do Nascimento ter oferecido um churrasco ao líder comunista, Luís Carlos Prestes e igualmente não representa atitude criminosa o fato de muitos dos indiciados terem participado da reunião festiva. O promotor afirma que irá recorrer, pois os documentos acostados ao processo, prova de forma exuberante que as reuniões tinham caráter subversivo e objetivavam a mudança do regime vigente, por meios violentos, com nítida infração a lei de Segurança Nacional.
Esta informação é reiterada em 04 de Abril de 1968.
Em 11 de julho de 1969, em conformidade com oficio reservado da Delegacia de Polícia local, foi detido e levado a sede  da 2ª Divisão de Infantaria do Exercito, no Parque Ibirapuera, em razão dos últimos acontecimentos ocorridos em Carapicuíba, de natureza subversiva.
Indiscutivelmente, a história da vida de Luiz Bascheira confunde-se com a história das lutas da classe operária e em especial, dos ferroviários. Um vida centrada na ética, moral e sobretudo na coerência ideológica, nos levam a uma única certeza, homens como ele, fazem falta nos dias de hoje.




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