"A fome latina não é somente um sintoma alarmante: é o nervo da própria sociedade".
Glauber Rocha, em Estética da Fome.
Participou da Coluna Prestes em 1924, foi preso e duramente torturado em 1935, tendo ficado paralítico em decorrência da selvageria da polícia política de Getúlio Vargas. Mudou-se para Bauru no início dos anos quarenta e foi militante do Partido Comunista, agindo dentro de suas possibilidades de locomoção. A paralisia não o deixou entregue, prostrado, ao contrário, concedeu ânimos para lutar em defesa dos oprimidos. Jamais fez da política um meio de ganhar a vida e criticava asperamente aqueles que assim agiam, por entender que traiam os interesses da classe trabalhadora.
Em 1949, exercendo a profissão de sapateiro, teve um desacordo comercial com Alfio Sampiere referente à compra de couro e acabar por disparar tiros contra aquela loja comercial. Preso em flagrante permaneceu preso na Cadeia Pública local, onde foi companheiro de cela do igualmente marxista Arcôncio Pereira da Silva, preso por participação na greve de Triagem, da Companhia Paulista de Estrada de Ferro.
Militante marxista coerente e com firmeza ideológica, ALBERTO, jamais deixou de estar presente nos principais movimentos populares de Bauru, além de atuar de forma firme no recrutamento de militantes para o partido.
Indiscutivelmente, um de seus maiores momentos de emoção foi quando recebeu a visita em sua casa, do Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes, no ano de 1984 e posteriormente em 1989.
Em 1979, o camarada Alberto nos concedeu o depoimento a seguir transcrito, depoimento este que publicamos no trabalho-denúncia “Subsídios para a História da Repressão em Bauru”, editado pelo Comitê Brasileiro pela Anistia, secção de Bauru.
“Pertenci a Aliança Nacional Libertadora, sendo que seu comandante político era o Coronel Cabanas, sendo certo que depois ele abandonou, não sei o porquê, não sei o quê deu na bola dele e acabou passando para o lado do Getúlio, que era o Presidente da República na época. O Chefe de Polícia era o Filinto Muller, que havia sido da Coluna Prestes em 1924, junto comigo, sendo que ele era o tesoureiro e acabou fugindo com todo o dinheiro da coluna, largando a gente em Mato Grosso sem um centavo, sendo que a Coluna tinha em caixa naquela época 3$500 ( três mil e quinhentos contos de réis) e toda a grana estava em suas mãos. O Filinto tinha o grupinho dele dentro da Coluna, sendo que sumiram ele, o grupo e o “tutu”.
Naquele tempo, meu velho, a Coluna Prestes apenas era a favor do levante de 24, que foi o levante de São Paulo, comandado por Isidoro Dias Lopes contra Artur Bernardes que era o Presidente da República. Isidoro, que levantou São Paulo, era comandante da II Região Militar e uniu-se a Potiguar, que comandava a 1ª Região Militar, e, juntos organizaram o levante de 24. Na hora “H” o Isidoro levantou, mas Potiguar traiu o pacto preferindo ficar ao lado do governo, desta forma, São Paulo teve que lutar sozinho e é ai que entra o Luis Carlos Prestes na história, pois como comandante do Batalhão de Ferroviários do Rio Grande do Sul, resolveu igualmente levantar com o seu Batalhão, em solidariedade a Isidoro. Naquele tempo, Prestes era Capitão Engenheiro e, comandava como já disse o Batalhão dos Ferroviários. Batalhão dos Ferroviários queria dizer Batalhão de Engenharia.
Foi a partir deste momento que se formou a Coluna, tendo se unido ao Batalhão dos Ferroviários, um esquadrão da cavalaria, que acabou cortando o Brasil até Cuiabá, quando Prestes decidiu que esta coluna deveria se juntar ao pessoal de São Paulo.
Nesta época eu tinha 15 para 16 anos, e acabei ficando simpático pelas causas de Isidoro Dias Lopes, acabando por me alistar como voluntário indo para aquele Quartel perto do Monumento do Ipiranga e lá ficando por trinta dias. Daí as tropas governistas começaram a fechar, fechar, bombardeando São Paulo e o povo pedindo para que Isidoro recuasse, pois se continuasse daquele jeito acabaria por estragar muito a capital. O governo concentrou a artilharia no alto do Santana, iniciando um bombardeio incrível na capital, sendo que nesta época se concretizou a traição do General Potiguar que assumiu o comando dos ataques as tropas de Isidoro. Foi então que o Cabanas formou a resistência na torre da Estação da Luz. Colocou metralhadoras pesadas ali e foi agüentando e enquanto isto as tropas ia recuando para o interior. Ficamos ali isolados, em um número de mais ou menos cento e cinqüenta combatentes, cercados por uns quatrocentos fuzileiros navais. Resistimos enquanto tínhamos munição e quando esta acabou, o nosso comandante foi objetivo:
“Olha minha gente, agora salve-se quem puder”.
Alguns se aproveitaram de um bueiro grande que lá existia e conseguiram sair na cabeceira do Tamanduatei, conseguindo agüentar uns dias por aquelas paragens e os adversários não conseguiram encontrar o nosso paradeiro, pois caso contrário, eles cercavam e acabavam com a gente. Passados alguns dias, nos dispersamos por São Paulo, com cada qual procurando o que fazer, pois as tropas legalistas já haviam tomado conta da cidade.
Entretanto, o Isidoro ficou puto da vida com o genro, General Potiguar e resolveu enviar um presente para ele. Preparou uma granada dentro de uma caixinha, colocou fitinha e um cartão com os dizeres:
“O POVO PAULISTA AGRADECE A V. EXCIA. POR TER LIBERTADO SÃO PAULO DOS BANDIDOS QUE QUERIAM FAZER REVOLUÇÂO”.
E o besta ao abrir a caixa estourou a granada, rebentando-se inteiro. O Isidoro depois desta, recuou e eu acabei encontrando e me incorporando a Coluna do Siqueira Campos em Mato Grosso. Tivemos um combate na divisa de Mato Grosso com Paraguai e acabei sendo preso. Estava muito doente, tinha pegado uma palustre e as tropas de Minas que me haviam prendido, ao verem que minha arma era uma metralhadora, queriam me linchar, pois entendiam que com a arma que possuía havia efetuado muitas baixas nas tropas deles. Um tenente do Exército entrou no meio e disse ao sargento das tropas mineiras, que já estava com o “parabelum” na minha cabeça que não poderiam me matar e em seguida perguntou qual era a minha situação, sendo que lhe expliquei que estava muito doente com “palustre”. A grande verdade é que este Tenente me salvou a vida, me conduzindo preso ao Hospital Militar de Campo Grande, sendo que depois de curado e contando com a ajuda de um sargento, consegui fugir. Nunca me esqueço que na fuga o sargento me deu um revólver, um queijo e uma lata de doce. Na fuga, consegui localizar a Coluna Prestes no alto Taquari, em Mato Grosso e daí, a acompanhei até a Bolívia.
Foi neste meio de tempo que o miserável do Filinto Muller foge com o dinheiro da Coluna, dinheiro este que o Prestes ia utilizar para buscar armamento não sei aonde, precisando, portanto deste dinheiro, pois o armamento estava orçado em mais ou menos, dois mil contos de réis, pois o pensamento de Prestes era tomar Cuiabá, que era um ponto estratégico para a Coluna. Se a cidade estava bem guardada, não seriam tão grandes as dificuldades para tomá-la, pois estávamos acostumados em lutar e ademais, tínhamos estratégia de combate. Entretanto, com o roubo de Muller, desarticulou toda a coluna e chegamos à conclusão que não tínhamos mais condições de tentar tomar a cidade de Cuiabá, acabamos por recuar definitivamente rumo a Bolívia.
A revolução começou em 1924 e eu imigrei em 1926 para a Bolívia, de lá fui para o Paraguai e posteriormente para a Argentina, de onde acabei retornando ao Brasil em 1927. Lembro-me de quando descobriram o furto de Filinto Muller, das palavras de Prestes:
“Se algum dia chegar a ser alguma coisa na vida, mando fuzilar este desgraçado do Filinto Muller”.
Prestes até esta época não era comunista, estava na luta de 24 que é aquela que falei anteriormente. Foi na Argentina que Prestes criou amizade com o secretário do Partido Comunista Argentino e começou a estudar a doutrina marxista. Eu também não tinha o mínimo conhecimento de Marx, e foi na Argentina que veio parar em minhas mãos um livro marxista, e, lendo, matutando, cheguei a conclusão de que Marx estava certo. Bem, até ali, eu não sabia porque pobre era pobre e rico era rico, por que um tinha muito e outro não tinha nada, pois até esta época eu era muito religioso e achava que cada um tinha uma cruz a carregar. Depois de ler Marx. Larguei deste negócio de religião.
Depois vim para São Paulo e acabei por entrar para a Polícia, acabando por entrar na Revolução de 32 e até parece que meu destino é entrar em encrencas para perder. Entrei na Revolução Constitucionalista, por entender que a luta era justa, era certa, pois a minha posição sempre foi a de lutar pelas causas justas. Daí é que perdemos a revolução, acabando por sair da polícia, ficando meio perdido politicamente até o surgimento da ANL, sendo certo que a ela adentrei e vieram àquelas lutas todas contra o Partido Integralista. Aliás, eu ficava louco de vontade para saber onde aquela gente arrumava tanto dinheiro para comprar tanta camisa, tanta bandeira, para fazer aquele barulho, aquela fofoca toda. Então me contaram que os integralistas eram financiados pelo Hitler e que era o Banco Alemão em São Paulo quem financiava o Plínio Salgado, que era o chefe dos “galinhas verdes”, e, que entusiasmado com o governo alemão, queria implantar em nosso país, o regime fascista alemão. Entretanto, o povo, principalmente os estudantes, acabou por descobrir que os integralistas eram agentes de Hitler, e muito embora, igualmente dissessem que nós, aliancistas, estávamos a serviço de Moscou, dissimulávamos e dizíamos que não era nada disso, e sim, que estávamos a serviço de nosso povo para combater os integralistas, que eram agentes do fascismo de Hitler no Brasil.
Em 1935, houve o levante da Praia Vermelha e logo em seguida Prestes e Olga, sua esposa, foram presos, e durante a Ditadura de Getúlio, entregaram Olga grávida, para a Gestapo de Hitler. A filha de ambos, Anita Leocádia nasceu em um campo de concentração alemão e posteriormente a mãe foi executada em uma câmara de gás. Quem entregou foi Getúlio e Filinto Muller e é por isto que eu digo, o MDB tem que tomar cuidado para que estes seguidores de Getúlio não adentrem as suas fileiras. Tem que ser um MDB popular, mas sem Getulistas.
PRISÃO e TORTURA
Em 1935, recebi em São Paulo 20.000 folhetos para serem distribuídos, folhetos estes convocando o povo para acabar com a Ditadura de Getúlio etc... e tal. Acabei por ser preso em Lins, pois vim de São Paulo para Bauru distribuindo estes panfletos, colocando em baixo das portas a noite, e de Bauru, resolvi ir pela Noroeste até acabar o material. Prenderam-me e levaram até a Delegacia, sendo certo que o cara que me prendeu pensou que fosse um ladrão, um arrombador de portas, e o Delegado me perguntou das ferramentas, pois arrombador tinha que ter ferramentas – pé de cabra etc -. O guarda que me prendeu disse que não sabia o que era, mas que eu tinha jogado um negócio no quintal e o Delegado determinou que ele fosse buscar. Foram lá e encontraram aquele monte de panfletos, ao que o Delegado virou para mim e disse:
- “O senhor é comunista, não é?”.
Fiquei quieto. O Delegado:
- “Estes papéis são comunistas e subversivos... o senhor vai preso para o gabinete”.
E me enviou para São Paulo. Chego no gabinete e é aquele negócio. Um monte de gente em cima, o cacete comendo solto, pancada e mais pancada. A ordem do ladrão do Filinto Muller era para matar “vermelho” na pancada e no gabinete chamavam a gente de “cão vermelho” e todo o dia a gente subia para apanhar. Pancada, bordoada, uma espécie de agulhas elétricas. Uma hora, um batia. Em outra hora, substituía o torturador. (vocês podem ver este dedo meu, enfiaram uma taquara que até hoje a unha é defeituosa).
Eu dizendo que não sabia de nada, não sei, pois eles queriam que eu desse conta do local onde foram impressos os panfletos. E a minha resposta era sempre a mesma:
- “Não sei e tenho raiva de quem sabe!”
Pois se estava preso, apanhando, não tinha cabimento levar mais alguém comigo. A luta é dura por causa disto. Você está preso, fique lá, apanhe mas não dede ninguém, não acuse e nem outros camaradas para a cadeia.
Aquele pau desgraçado e o Delegado, que era um galinha-verde roxo, no meio daquele festival de porrada, me dizia:
Vai ou não vai dizer, seu cão vermelho!
E eu, tão aborrecido, tão estropiado, que qualquer paixão me divertia, acabei por responder:
- Olha aqui, é muito melhor ser “cão vermelho” do que ser “galinha verde”, tá bom!
Foi a conta. Mandaram-me para a cela solitária, onde fiquei trinta dias com água até o peito, me dando um pãozinho pequeno, como ração diária e o pior, a água onde estava, tinha que defecar, urinar e beber. Ora, meu caro, trinta dias foi o que agüentei, acabei caindo e me mandaram para o hospital. Na certa pensaram que iria morrer, depois de tanto apanhar e ficar apodrecendo trinta dias na água, acabei transferido para a Santa Casa e de lá libertado, acabei por ficar uns tempos na casa de um companheiro no Ipiranga.
No meu tempo, tinha dois camponeses presos, dois irmãos que eram de São José do Rio Preto e que se encontravam presos com a acusação de estarem agitando os camponeses, em busca da reforma agrária. E, tinha um tira espancador, chamado Massilon, um tremendo espancador mesmo que todos os dias pegava um destes companheiros para espancar lá em cima e um dia, não sei o que aconteceu direito, pois para chegarem ao local onde eram praticadas as torturas, tinha que subir uma escadaria estreita, e este tal de Massilon subia dando pontapés, murros nestes companheiros e neste dia, o companheiro tomou coragem e deu um pontapé no saco do Massilon e este desceu rolando a escada e acabou por fraturar as costelas. Acabou sendo internado, e depois de uns quinze dias, tendo alta, voltou, chamou o companheiro que o havia chutado e lhe deu um tiro dentro da cela. Atirou no companheiro dentro da cela, preso, indefeso. Massilon demonstrou neste episódio ser um vagabundo, covarde, sem vergonha. O irmão sobrevivente jurou vingança e de fato quando saiu da prisão, vingou mesmo, acabando com a vida de Massilon.
Pouco tempo depois, veio a ordem de soltura para a maioria que se encontrava presa, e muitos haviam morrido nas torturas animalescas praticadas pela polícia política.
Saindo do hospital, depois de algum tempo fui novamente preso e acabei por vir trabalhar no campo, pois era muito perseguido na cidade e na zona rural, continuei a realizar o mesmo trabalho que realizava na cidade, buscando esclarecer as massas sofridas e acabei por organizar muitas greves em fazendas, na busca de melhores condições de vida para os camponeses. Mas era muito difícil conscientizar o povo do campo, pois a religião contribuía e contribui muito para o atraso do povo brasileiro, afinal, os líderes religiosos dizem que o cidadão é pobre e miserável por causa do destino, e não em virtude da exploração patronal. Mesmo assim consegui organizar duas boas greves, com boa receptividade entre os trabalhadores. Depois deste trabalho no campo, em 1937, acabei por ficar paralítico, não sei se por conseqüência das torturas ou não, mas, estava trabalhando em Araçatuba e fiquei paralítico, e acabei vindo para Agudos e depois para a Santa Casa de São Paulo, onde fiquei uns seis meses e não houve jeito de recuperar. Transferiram-me para o Rio de Janeiro, onde fiquei um bom tempo no Hospital São Francisco de Assis, onde acabei sendo desenganado pelos médicos. Talvez esta paralisia seja conseqüência do tempo que fiquei dentro d’água ou de uma coronhada muito forte que levei na espinha, e que me deixou muito tempo atrapalhado. Sabe o que é uma coronhada de fuzil na espinha? Na verdade acabaram com minha saúde!
No Hospital era para tirar um líquido da minha espinha e o sujeito que foi tirar era completamente inexperiente, além de começar a tirar o líquido como todo bom brasileiro, discutindo futebol, e acabou tirando líquido a mais do que podia e acabou de me arrebentar. Um professor deu uma tremenda bronca mas de nada mais adiantava. Fiquei deitado em uma cama, com uma terrível dor de cabeça por mais de cinqüenta dias, com a cabeça para baixo, quase sem líquido na espinha, sofrendo com a dor de cabeça, pois parecia que estavam me arrancando a cabeça do corpo e desta forma, a paralisia atacou definitivamente e com os médicos desenganando, não dando qualquer esperança de voltar a andar, acabei vindo para Bauru em 1940, indo residir na rua Ezequiel Ramos.
Os vizinhos diziam que devia pedir esmolas para sobreviver, o que nunca aceitei, pois não nasci para isto. Naquele tempo, minha companheira, Amélia Auradelli era viva, trabalhava e ganhava 70 mil réis. Tinha um companheiro que nunca mais vi, que agora está em São Paulo, o João Rocha que conhecia o ofício de sapateiro e me ensinou. Comecei então a trabalhar, juntei um dinheiro e quando minha companheira começou a trabalhar no Sanatório Manoel de Abreu, juntos compramos um terreno na Vila Industrial e construímos um ranchinho e lá estou morando até hoje. Minha companheira faleceu e era uma grande sujeita, não reclamava de nada e o que desse e viesse, ela agüentava a parada. Agora, fiquei nesta situação: Só e paralítico, mas a luta é esta e não pode parar.
O advogado e jornalista Arthur Monteiro Júnior, que cuidou do velho militante em seus últimos anos de vida, em um verdadeiro e raro exemplo de solidariedade humana, prepara minuciosa biografia deste velho combatente e herói anônimo da classe trabalhadora, além de estar abrindo na cidade de Bauru, um Espaço Cultural que leva o nome deste combatente das causas populares, que com certeza abrilhantará nossas bibliotecas e a cultura Bauruense, pois indiscutivelmente ALBERTO DE SOUZA, codinome Brasil, merece ter seu nome sempre lembrado e suas lutas contadas, para que sirvam de estímulo para as novas gerações, como exemplo perene de coerência revolucionária e de persistência pela sobrevivência no dia a dia.
Glauber Rocha, em Estética da Fome.
Participou da Coluna Prestes em 1924, foi preso e duramente torturado em 1935, tendo ficado paralítico em decorrência da selvageria da polícia política de Getúlio Vargas. Mudou-se para Bauru no início dos anos quarenta e foi militante do Partido Comunista, agindo dentro de suas possibilidades de locomoção. A paralisia não o deixou entregue, prostrado, ao contrário, concedeu ânimos para lutar em defesa dos oprimidos. Jamais fez da política um meio de ganhar a vida e criticava asperamente aqueles que assim agiam, por entender que traiam os interesses da classe trabalhadora.
Em 1949, exercendo a profissão de sapateiro, teve um desacordo comercial com Alfio Sampiere referente à compra de couro e acabar por disparar tiros contra aquela loja comercial. Preso em flagrante permaneceu preso na Cadeia Pública local, onde foi companheiro de cela do igualmente marxista Arcôncio Pereira da Silva, preso por participação na greve de Triagem, da Companhia Paulista de Estrada de Ferro.
Militante marxista coerente e com firmeza ideológica, ALBERTO, jamais deixou de estar presente nos principais movimentos populares de Bauru, além de atuar de forma firme no recrutamento de militantes para o partido.
Indiscutivelmente, um de seus maiores momentos de emoção foi quando recebeu a visita em sua casa, do Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes, no ano de 1984 e posteriormente em 1989.
Em 1979, o camarada Alberto nos concedeu o depoimento a seguir transcrito, depoimento este que publicamos no trabalho-denúncia “Subsídios para a História da Repressão em Bauru”, editado pelo Comitê Brasileiro pela Anistia, secção de Bauru.
“Pertenci a Aliança Nacional Libertadora, sendo que seu comandante político era o Coronel Cabanas, sendo certo que depois ele abandonou, não sei o porquê, não sei o quê deu na bola dele e acabou passando para o lado do Getúlio, que era o Presidente da República na época. O Chefe de Polícia era o Filinto Muller, que havia sido da Coluna Prestes em 1924, junto comigo, sendo que ele era o tesoureiro e acabou fugindo com todo o dinheiro da coluna, largando a gente em Mato Grosso sem um centavo, sendo que a Coluna tinha em caixa naquela época 3$500 ( três mil e quinhentos contos de réis) e toda a grana estava em suas mãos. O Filinto tinha o grupinho dele dentro da Coluna, sendo que sumiram ele, o grupo e o “tutu”.
Naquele tempo, meu velho, a Coluna Prestes apenas era a favor do levante de 24, que foi o levante de São Paulo, comandado por Isidoro Dias Lopes contra Artur Bernardes que era o Presidente da República. Isidoro, que levantou São Paulo, era comandante da II Região Militar e uniu-se a Potiguar, que comandava a 1ª Região Militar, e, juntos organizaram o levante de 24. Na hora “H” o Isidoro levantou, mas Potiguar traiu o pacto preferindo ficar ao lado do governo, desta forma, São Paulo teve que lutar sozinho e é ai que entra o Luis Carlos Prestes na história, pois como comandante do Batalhão de Ferroviários do Rio Grande do Sul, resolveu igualmente levantar com o seu Batalhão, em solidariedade a Isidoro. Naquele tempo, Prestes era Capitão Engenheiro e, comandava como já disse o Batalhão dos Ferroviários. Batalhão dos Ferroviários queria dizer Batalhão de Engenharia.
Foi a partir deste momento que se formou a Coluna, tendo se unido ao Batalhão dos Ferroviários, um esquadrão da cavalaria, que acabou cortando o Brasil até Cuiabá, quando Prestes decidiu que esta coluna deveria se juntar ao pessoal de São Paulo.
Nesta época eu tinha 15 para 16 anos, e acabei ficando simpático pelas causas de Isidoro Dias Lopes, acabando por me alistar como voluntário indo para aquele Quartel perto do Monumento do Ipiranga e lá ficando por trinta dias. Daí as tropas governistas começaram a fechar, fechar, bombardeando São Paulo e o povo pedindo para que Isidoro recuasse, pois se continuasse daquele jeito acabaria por estragar muito a capital. O governo concentrou a artilharia no alto do Santana, iniciando um bombardeio incrível na capital, sendo que nesta época se concretizou a traição do General Potiguar que assumiu o comando dos ataques as tropas de Isidoro. Foi então que o Cabanas formou a resistência na torre da Estação da Luz. Colocou metralhadoras pesadas ali e foi agüentando e enquanto isto as tropas ia recuando para o interior. Ficamos ali isolados, em um número de mais ou menos cento e cinqüenta combatentes, cercados por uns quatrocentos fuzileiros navais. Resistimos enquanto tínhamos munição e quando esta acabou, o nosso comandante foi objetivo:
“Olha minha gente, agora salve-se quem puder”.
Alguns se aproveitaram de um bueiro grande que lá existia e conseguiram sair na cabeceira do Tamanduatei, conseguindo agüentar uns dias por aquelas paragens e os adversários não conseguiram encontrar o nosso paradeiro, pois caso contrário, eles cercavam e acabavam com a gente. Passados alguns dias, nos dispersamos por São Paulo, com cada qual procurando o que fazer, pois as tropas legalistas já haviam tomado conta da cidade.
Entretanto, o Isidoro ficou puto da vida com o genro, General Potiguar e resolveu enviar um presente para ele. Preparou uma granada dentro de uma caixinha, colocou fitinha e um cartão com os dizeres:
“O POVO PAULISTA AGRADECE A V. EXCIA. POR TER LIBERTADO SÃO PAULO DOS BANDIDOS QUE QUERIAM FAZER REVOLUÇÂO”.
E o besta ao abrir a caixa estourou a granada, rebentando-se inteiro. O Isidoro depois desta, recuou e eu acabei encontrando e me incorporando a Coluna do Siqueira Campos em Mato Grosso. Tivemos um combate na divisa de Mato Grosso com Paraguai e acabei sendo preso. Estava muito doente, tinha pegado uma palustre e as tropas de Minas que me haviam prendido, ao verem que minha arma era uma metralhadora, queriam me linchar, pois entendiam que com a arma que possuía havia efetuado muitas baixas nas tropas deles. Um tenente do Exército entrou no meio e disse ao sargento das tropas mineiras, que já estava com o “parabelum” na minha cabeça que não poderiam me matar e em seguida perguntou qual era a minha situação, sendo que lhe expliquei que estava muito doente com “palustre”. A grande verdade é que este Tenente me salvou a vida, me conduzindo preso ao Hospital Militar de Campo Grande, sendo que depois de curado e contando com a ajuda de um sargento, consegui fugir. Nunca me esqueço que na fuga o sargento me deu um revólver, um queijo e uma lata de doce. Na fuga, consegui localizar a Coluna Prestes no alto Taquari, em Mato Grosso e daí, a acompanhei até a Bolívia.
Foi neste meio de tempo que o miserável do Filinto Muller foge com o dinheiro da Coluna, dinheiro este que o Prestes ia utilizar para buscar armamento não sei aonde, precisando, portanto deste dinheiro, pois o armamento estava orçado em mais ou menos, dois mil contos de réis, pois o pensamento de Prestes era tomar Cuiabá, que era um ponto estratégico para a Coluna. Se a cidade estava bem guardada, não seriam tão grandes as dificuldades para tomá-la, pois estávamos acostumados em lutar e ademais, tínhamos estratégia de combate. Entretanto, com o roubo de Muller, desarticulou toda a coluna e chegamos à conclusão que não tínhamos mais condições de tentar tomar a cidade de Cuiabá, acabamos por recuar definitivamente rumo a Bolívia.
A revolução começou em 1924 e eu imigrei em 1926 para a Bolívia, de lá fui para o Paraguai e posteriormente para a Argentina, de onde acabei retornando ao Brasil em 1927. Lembro-me de quando descobriram o furto de Filinto Muller, das palavras de Prestes:
“Se algum dia chegar a ser alguma coisa na vida, mando fuzilar este desgraçado do Filinto Muller”.
Prestes até esta época não era comunista, estava na luta de 24 que é aquela que falei anteriormente. Foi na Argentina que Prestes criou amizade com o secretário do Partido Comunista Argentino e começou a estudar a doutrina marxista. Eu também não tinha o mínimo conhecimento de Marx, e foi na Argentina que veio parar em minhas mãos um livro marxista, e, lendo, matutando, cheguei a conclusão de que Marx estava certo. Bem, até ali, eu não sabia porque pobre era pobre e rico era rico, por que um tinha muito e outro não tinha nada, pois até esta época eu era muito religioso e achava que cada um tinha uma cruz a carregar. Depois de ler Marx. Larguei deste negócio de religião.
Depois vim para São Paulo e acabei por entrar para a Polícia, acabando por entrar na Revolução de 32 e até parece que meu destino é entrar em encrencas para perder. Entrei na Revolução Constitucionalista, por entender que a luta era justa, era certa, pois a minha posição sempre foi a de lutar pelas causas justas. Daí é que perdemos a revolução, acabando por sair da polícia, ficando meio perdido politicamente até o surgimento da ANL, sendo certo que a ela adentrei e vieram àquelas lutas todas contra o Partido Integralista. Aliás, eu ficava louco de vontade para saber onde aquela gente arrumava tanto dinheiro para comprar tanta camisa, tanta bandeira, para fazer aquele barulho, aquela fofoca toda. Então me contaram que os integralistas eram financiados pelo Hitler e que era o Banco Alemão em São Paulo quem financiava o Plínio Salgado, que era o chefe dos “galinhas verdes”, e, que entusiasmado com o governo alemão, queria implantar em nosso país, o regime fascista alemão. Entretanto, o povo, principalmente os estudantes, acabou por descobrir que os integralistas eram agentes de Hitler, e muito embora, igualmente dissessem que nós, aliancistas, estávamos a serviço de Moscou, dissimulávamos e dizíamos que não era nada disso, e sim, que estávamos a serviço de nosso povo para combater os integralistas, que eram agentes do fascismo de Hitler no Brasil.
Em 1935, houve o levante da Praia Vermelha e logo em seguida Prestes e Olga, sua esposa, foram presos, e durante a Ditadura de Getúlio, entregaram Olga grávida, para a Gestapo de Hitler. A filha de ambos, Anita Leocádia nasceu em um campo de concentração alemão e posteriormente a mãe foi executada em uma câmara de gás. Quem entregou foi Getúlio e Filinto Muller e é por isto que eu digo, o MDB tem que tomar cuidado para que estes seguidores de Getúlio não adentrem as suas fileiras. Tem que ser um MDB popular, mas sem Getulistas.
PRISÃO e TORTURA
Em 1935, recebi em São Paulo 20.000 folhetos para serem distribuídos, folhetos estes convocando o povo para acabar com a Ditadura de Getúlio etc... e tal. Acabei por ser preso em Lins, pois vim de São Paulo para Bauru distribuindo estes panfletos, colocando em baixo das portas a noite, e de Bauru, resolvi ir pela Noroeste até acabar o material. Prenderam-me e levaram até a Delegacia, sendo certo que o cara que me prendeu pensou que fosse um ladrão, um arrombador de portas, e o Delegado me perguntou das ferramentas, pois arrombador tinha que ter ferramentas – pé de cabra etc -. O guarda que me prendeu disse que não sabia o que era, mas que eu tinha jogado um negócio no quintal e o Delegado determinou que ele fosse buscar. Foram lá e encontraram aquele monte de panfletos, ao que o Delegado virou para mim e disse:
- “O senhor é comunista, não é?”.
Fiquei quieto. O Delegado:
- “Estes papéis são comunistas e subversivos... o senhor vai preso para o gabinete”.
E me enviou para São Paulo. Chego no gabinete e é aquele negócio. Um monte de gente em cima, o cacete comendo solto, pancada e mais pancada. A ordem do ladrão do Filinto Muller era para matar “vermelho” na pancada e no gabinete chamavam a gente de “cão vermelho” e todo o dia a gente subia para apanhar. Pancada, bordoada, uma espécie de agulhas elétricas. Uma hora, um batia. Em outra hora, substituía o torturador. (vocês podem ver este dedo meu, enfiaram uma taquara que até hoje a unha é defeituosa).
Eu dizendo que não sabia de nada, não sei, pois eles queriam que eu desse conta do local onde foram impressos os panfletos. E a minha resposta era sempre a mesma:
- “Não sei e tenho raiva de quem sabe!”
Pois se estava preso, apanhando, não tinha cabimento levar mais alguém comigo. A luta é dura por causa disto. Você está preso, fique lá, apanhe mas não dede ninguém, não acuse e nem outros camaradas para a cadeia.
Aquele pau desgraçado e o Delegado, que era um galinha-verde roxo, no meio daquele festival de porrada, me dizia:
Vai ou não vai dizer, seu cão vermelho!
E eu, tão aborrecido, tão estropiado, que qualquer paixão me divertia, acabei por responder:
- Olha aqui, é muito melhor ser “cão vermelho” do que ser “galinha verde”, tá bom!
Foi a conta. Mandaram-me para a cela solitária, onde fiquei trinta dias com água até o peito, me dando um pãozinho pequeno, como ração diária e o pior, a água onde estava, tinha que defecar, urinar e beber. Ora, meu caro, trinta dias foi o que agüentei, acabei caindo e me mandaram para o hospital. Na certa pensaram que iria morrer, depois de tanto apanhar e ficar apodrecendo trinta dias na água, acabei transferido para a Santa Casa e de lá libertado, acabei por ficar uns tempos na casa de um companheiro no Ipiranga.
No meu tempo, tinha dois camponeses presos, dois irmãos que eram de São José do Rio Preto e que se encontravam presos com a acusação de estarem agitando os camponeses, em busca da reforma agrária. E, tinha um tira espancador, chamado Massilon, um tremendo espancador mesmo que todos os dias pegava um destes companheiros para espancar lá em cima e um dia, não sei o que aconteceu direito, pois para chegarem ao local onde eram praticadas as torturas, tinha que subir uma escadaria estreita, e este tal de Massilon subia dando pontapés, murros nestes companheiros e neste dia, o companheiro tomou coragem e deu um pontapé no saco do Massilon e este desceu rolando a escada e acabou por fraturar as costelas. Acabou sendo internado, e depois de uns quinze dias, tendo alta, voltou, chamou o companheiro que o havia chutado e lhe deu um tiro dentro da cela. Atirou no companheiro dentro da cela, preso, indefeso. Massilon demonstrou neste episódio ser um vagabundo, covarde, sem vergonha. O irmão sobrevivente jurou vingança e de fato quando saiu da prisão, vingou mesmo, acabando com a vida de Massilon.
Pouco tempo depois, veio a ordem de soltura para a maioria que se encontrava presa, e muitos haviam morrido nas torturas animalescas praticadas pela polícia política.
Saindo do hospital, depois de algum tempo fui novamente preso e acabei por vir trabalhar no campo, pois era muito perseguido na cidade e na zona rural, continuei a realizar o mesmo trabalho que realizava na cidade, buscando esclarecer as massas sofridas e acabei por organizar muitas greves em fazendas, na busca de melhores condições de vida para os camponeses. Mas era muito difícil conscientizar o povo do campo, pois a religião contribuía e contribui muito para o atraso do povo brasileiro, afinal, os líderes religiosos dizem que o cidadão é pobre e miserável por causa do destino, e não em virtude da exploração patronal. Mesmo assim consegui organizar duas boas greves, com boa receptividade entre os trabalhadores. Depois deste trabalho no campo, em 1937, acabei por ficar paralítico, não sei se por conseqüência das torturas ou não, mas, estava trabalhando em Araçatuba e fiquei paralítico, e acabei vindo para Agudos e depois para a Santa Casa de São Paulo, onde fiquei uns seis meses e não houve jeito de recuperar. Transferiram-me para o Rio de Janeiro, onde fiquei um bom tempo no Hospital São Francisco de Assis, onde acabei sendo desenganado pelos médicos. Talvez esta paralisia seja conseqüência do tempo que fiquei dentro d’água ou de uma coronhada muito forte que levei na espinha, e que me deixou muito tempo atrapalhado. Sabe o que é uma coronhada de fuzil na espinha? Na verdade acabaram com minha saúde!
No Hospital era para tirar um líquido da minha espinha e o sujeito que foi tirar era completamente inexperiente, além de começar a tirar o líquido como todo bom brasileiro, discutindo futebol, e acabou tirando líquido a mais do que podia e acabou de me arrebentar. Um professor deu uma tremenda bronca mas de nada mais adiantava. Fiquei deitado em uma cama, com uma terrível dor de cabeça por mais de cinqüenta dias, com a cabeça para baixo, quase sem líquido na espinha, sofrendo com a dor de cabeça, pois parecia que estavam me arrancando a cabeça do corpo e desta forma, a paralisia atacou definitivamente e com os médicos desenganando, não dando qualquer esperança de voltar a andar, acabei vindo para Bauru em 1940, indo residir na rua Ezequiel Ramos.
Os vizinhos diziam que devia pedir esmolas para sobreviver, o que nunca aceitei, pois não nasci para isto. Naquele tempo, minha companheira, Amélia Auradelli era viva, trabalhava e ganhava 70 mil réis. Tinha um companheiro que nunca mais vi, que agora está em São Paulo, o João Rocha que conhecia o ofício de sapateiro e me ensinou. Comecei então a trabalhar, juntei um dinheiro e quando minha companheira começou a trabalhar no Sanatório Manoel de Abreu, juntos compramos um terreno na Vila Industrial e construímos um ranchinho e lá estou morando até hoje. Minha companheira faleceu e era uma grande sujeita, não reclamava de nada e o que desse e viesse, ela agüentava a parada. Agora, fiquei nesta situação: Só e paralítico, mas a luta é esta e não pode parar.
O advogado e jornalista Arthur Monteiro Júnior, que cuidou do velho militante em seus últimos anos de vida, em um verdadeiro e raro exemplo de solidariedade humana, prepara minuciosa biografia deste velho combatente e herói anônimo da classe trabalhadora, além de estar abrindo na cidade de Bauru, um Espaço Cultural que leva o nome deste combatente das causas populares, que com certeza abrilhantará nossas bibliotecas e a cultura Bauruense, pois indiscutivelmente ALBERTO DE SOUZA, codinome Brasil, merece ter seu nome sempre lembrado e suas lutas contadas, para que sirvam de estímulo para as novas gerações, como exemplo perene de coerência revolucionária e de persistência pela sobrevivência no dia a dia.
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