segunda-feira, 27 de abril de 2009

ANTENOR DIAS


“Procuro o homem do povo porque recuso a mistificação revolucionária dos gabinetes”.
(Luís Eurico Tejera Lisboa, desaparecido político).



Nascido em Bauru, aos vinte e um de outubro de 1921, filho do militante operário Aristides Dias e da dona de casa Ermelinda Viegas Dias, era casado com dona Ana Cavalheiro Dias, com quem teve a filha Sonia. Para falarmos na resistência democrática e na organização da classe operária em nossa cidade, temos necessariamente que falar deste torneiro mecânico da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, onde ingressou como aluno aprendiz em 01 de Fevereiro de 1937, tendo falecido em Bauru, no dia 28 de Maio de 1979, quando começavam a soprar os ventos da liberdade em nossa pátria. O velho Antenor, o tio Antenor, como carinhosamente era chamado, iniciou sua militância política no início da década de 40, e em 30 de Outubro de 1946, era citado pelo jornal “Hoje” como membro da Comissão Pró Reivindicação dos Ferroviários da Noroeste, em Bauru. Participante ativo dos movimentos populares foi um dos oradores do comício realizado em Bauru, no dia 06 de Outubro de 1948, em defesa da nacionalização do petróleo, sendo escolhido em 17 de novembro do mesmo ano como um dos membros da Comissão Bauruense de Defesa do Petróleo Brasileiro.
Mostrando sempre estar preocupado com os movimentos populares, em 20 de Janeiro de 1949, juntamente com o companheiro ferroviário Julio Xavier, liderou Greve de advertência nas oficinas da NOB, em solidariedade aos grevistas da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que eram atacados selvagelmente pela polícia, na Estação de Triagem e em setembro do mesmo ano liderou a coleta de assinaturas em abaixo-assinado que solicitava o arquivamento dos processos instaurados contra o líder comunista, Luiz Carlos Prestes. Em 7 de Setembro do mesmo mês e ano, juntamente com Julio Xavier, Arcôncio Pereira da Silva, José Spétic, Manoel José Donato, Elias Calixto Bitar, e dezenas de outros companheiros, saíram em passeata pela Avenida Rodrigues Alves, logo após a parada militar, pedindo em faixas: “Queremos a verdadeira democracia”; “Pela Paz Mundial”; “Contra a Carestia”. Atacados pela cavalaria, atiraram “bolas de gude” e rolhas de cortiça sobre o leito carroçável da avenida, impedindo desta forma criativa o avanço dos cavalos.
As intensas atividades políticas de Antenor renderam neste ano de 1949 uma suspensão de noventa dias na ferrovia em indiciamento em Inquérito Policial, por infração a Lei de Segurança Nacional, sob a acusação de exercer atividades subversivas.
Em 1947, candidatou-se a vereador pelo Partido Trabalhista Nacional – PTN -, com o apoio da “Aliança pela Paz e Contra a Carestia”, não logrando êxito nesta empreitada, sendo que esta incursão eleitoral rendeu-lhe novo processo por infração a Lei de Segurança Nacional, por ter utilizado em seus panfletos eleitorais a expressão: “Candidato de Luis Carlos Prestes”, sendo que esta mesma expressão ensejou a cassação do mandato de Manoel José Donato na cidade de Bauru, e de centenas de outros, por todo o Brasil. Em uma demonstração inequívoca de que não se movia por interesses puramente eleitorais, logo em seguida as eleições, passou a fazer parte da Comissão Dirigente da Aliança Pró Paz Mundial e contra a Carestia, que o havia apoiado nas eleições. Sua intensa atividade política e sindical, sempre na defesa da classe trabalhadora, levou-o a ser fichado pela polícia política – DOPS – como perigoso comunista e subversivo, sendo aos 13 de junho de 1952, novamente indiciado em Inquérito Policial, com fundamentação na Lei de Segurança Nacional, por ter insistido,juntamente com outras lideranças operárias locais, na realização de um comício em defesa da Paz Mundial e pela defesa da Cultura Nacional. As lutas constantes contra a Carestia, Pela Paz Mundial, contra a construção de armas atômicas, pelo arquivamento de processos contra Luis Carlos Prestes, ajudavam a consolidar sua liderança junto à classe ferroviária e à população de Bauru, sendo que isso não interessava a classe dominante, que com base no último processo instaurado contra Antenor, demitira-o da Estrada de Ferro em 08 de dezembro de 1952.
Tendo sido reintegrado no final da década de 50, reiniciou imediatamente sua militância sindical, tendo sido eleito Secretario da Associação Profissional dos Ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, sendo certo que no exercício de seu mandato sindical, sempre esteve ao lado das outras categorias profissionais de nossa cidade, sendo que, por decorrência de sua atividade solidária, em 1963 foi novamente preso juntamente com o então vereador Edison Bastos Gasparini e outros sete servidores municipais, acusado de incitar e ajudar a organizar a greve que os funcionários municipais em busca do recebimento de seus salários e abonos atrasados. Preso por determinação expressa do Sr. Prefeito Municipal, Irineu Bastos, em 30 de Novembro de 1963, e mais uma vez enquadrado na Lei de Segurança Nacional – Lei 1802 -. Foi libertado, juntamente com os servidores municipais em 05 de Dezembro do mesmo ano, graças a um “Hábeas-Corpus” impetrado pelos advogados Análio Gilberto Smith e Joaquim Mendonça Sobrinho. Ressalve-se que o vereador Gasparini não ficou preso na ocasião, por interferência da mesa diretora da Câmara Municipal. Com o advento do Golpe Militar de 1º de Abril de 1964, conseguiu evadir-se, sendo certo que nem a polícia política, nem seu braço militar, a famigerada FAC – Frente Anti-Comunista -, capitaneada pelo promotor público, Dr. Silvio Marques Júnior, conseguiram detê-lo. Sem sombra de dúvidas a não detenção, em conjunto com a fuga empreendida por Gasparini, Edson Francisco, Joaquim Mendonça, Análio Gilberto Smith, Jonas Paes Cavalcante, considerados como mentores intelectuais e principais lideranças comunistas de nossa cidade, sendo que principalmente a não prisão do perigoso agitador comunista, Antenor Dias, trouxe desalento e decepção a repressão e a Direita Bauruense. Pela imprensa local criticavam em tom de zombaria, que Antenor encontrava-se foragido, em local incerto e não sabido. Como qualquer outro ser humano, lúcido e normal faria, entre a cadeia e a liberdade este preferiu a última opção. Acabou por ser destituído do cargo de Secretario da Associação Profissional dos Ferroviários da Noroeste do Brasil, que sofreu intervenção determinada pelo Delegado de Polícia local, Dr. Amir Neves, sendo que os interventores da entidade da classe dos ferroviários foram nomeados pelo Sr. Pedro Pedrossian, então diretor da Estrada de Ferro e posteriormente governador de Mato Grosso. Os ferroviários que aceitaram a missão de intervir na entidade de classe representativa dos trabalhadores, como representantes da Ditadura Militar que ali se iniciava, foram os senhores: Dr. José Balduino de Magalhães, Dr. José Cristóvão Carneiro da Cunha e o Sr. Hugo da Rocha Reis.
Em 1º de Maio de 1964, Antenor foi novamente demitido da Estrada de Ferro, por abandono de emprego, sendo que em 09 de Outubro de 1964, com base no artigo 4º de 09 de Abril de 1964, teve sua demissão homologada pelo Presidente da República, Humberto de Alencar Castelo Branco, conforme publicação no Diário Oficial de 10 de Outubro do mesmo ano. Parece piada, mas não o é, uma demissão por abandono de emprego, transformada em demissão arbitrária, embasada em um Ato ditatorial. Demitido, acabou por se afastar da militância partidária, especializando-se em manutenção de gabinetes dentários, contando com a colaboração do comunista João Batista Dias, protético de formação, que indicava os serviços profissionais ao companheiro de lutas, aos dentistas conhecidos, e cremos que estes profissionais da botica que confiavam nos serviços de Antenor, não imaginavam estar diante de um perigoso agitador e líder comunista, execrado pela revolução. E mesmo sem estar atuando politicamente, foi novamente denunciado ao DOPS/Bauru, juntamente com seus ex-companheiros João Batista Dias e Jonas Paes Cavalcante, como elemento perigoso e subversivo, denúncia esta formulada pelo seu ex-companheiro de diretoria de Associação, Sr. Adelmo Veloso, em 1975.
Em outubro de 1978, após quatorze longos anos de ausência, com muita coisa enroscada na garganta, compareceu ao comício realizado na confluência da rua Rio Branco com Avenida Rodrigues Alves, comício este de campanha eleitoral, do então candidato a senador Fernando Henrique Cardoso, pelo então MDB. Por ironia do destino, quase que o comício não se realiza, pois os coordenadores oficiais da campanha do MDB na cidade, não haviam solicitado autorização para a realização do mesmo. Os estudantes, utilizando-se de carros particulares, bloquearam as ruas e o comício foi realizado quase que na marra, tendo o então soldado da PM, João Lúcio Rodrigues, tentado agredir os estudantes e desbloquear o transito. Os estudantes, representados por Ivonyr Rodrigues Ayres, exigiram que em nome dos estudantes falasse para saudar o povo e o candidato ao Senado Federal, fizesse uso da palavra o ex-líder ferroviário Antenor Dias, que tal qual FHC havia sido perseguido e cassado pela revolução.
Sem sombras de dúvidas, a emoção tomou conta de todos, inclusive de velhos camaradas como Gasparini, Pebá e Edson Francisco, quando do alto daquele palanque ecoou a voz sempre libertária do velho guerreiro Antenor Dias, que voltava ao cenário que jamais deveria ter abandonado. Lembrou ao então candidato ao Senado Federal, que naquele mesmo local, na década de 50, a policia havia reprimido um comício com a presença do General Leônidas Cardoso, pai de FHC e que naquela oportunidade diversas lideranças operárias haviam sido detidas, inclusive o orador.
Este comício foi o canto do cisne do velho combatente das causas populares, pois aproximadamente oito meses após este evento veio a falecer, e seus novos companheiros de luta, os estudantes que reorganizavam o Movimento Estudantil Bauruense, não puderam prestar-lhe as últimas e merecidas homenagens, por estarem participando do Congresso de Reconstrução da UNE, em Salvador-Ba.
Antenor Dias deveria ser homenageado dignamente na cidade onde nasceu, militou e morreu, emprestando seu honrado nome a um logradouro público de nossa cidade, por tudo que representou para a classe trabalhadora de Bauru.

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