segunda-feira, 27 de abril de 2009

A LUTA PELA TERRA EM BAURU E REGIÃO.

Invasão da Fazenda Jacutinga.

Podemos afirmar com absoluta segurança de que a luta pela reforma agrária, começou há muito tempo em nossa região, bem como a luta contra a exploração do trabalhador rural. Muito embora, tenhamos registro que remontam ao início da década de 60, com certeza esta luta é anterior. Se não tivemos movimentos no sentido de ser realizada a reforma agrária, o movimento contra a exploração da mão de obra rural, sempre foi ativo em nossa região; e na década de 30, o líder camponês Oswaldo Pacheco, trabalhador da Fazenda Val de Palmas, preso nos anos trinta, acabou por morrer dentro do Presídio Maria Zélia na cidade de São Paulo. E, como sempre ocorre quando das denúncias de exploração da classe trabalhadora, os líderes dos movimentos reivindicatórios, imediatamente são tachados de comunistas, “inimigos dos patrões e da paz social”, “agitador perigoso” etc...
Aqui, na vizinha Presidente Alves, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais foi logo após o golpe militar acusado de congregar “perigosos líderes comunistas” tais como: “Francisco Caetano, presidente da entidade, além de Luís Vieira, Sebastião dos Reis, dentre outros membros da diretoria”. O nosso velho conhecido, investigador de polícia Carlos Rossa Netto, useiro e vezeiro na artimanha de enviar informes falsos para São Paulo, relatando falsamente a atuação dos comunistas em nossa cidade e região, neste caso específico demonstra amargamente todo o seu preconceito contra a presença de homens simples, rudes e camponeses na direção da entidade sindical. Talvez quisesse, referido cidadão, inimigo declarado da classe trabalhadora, que os trabalhadores rurais continuassem sem décimo terceiro salário, férias, descanso semanal remunerado e outros direitos trabalhistas, que os patrões de forma insistente negavam-se a pagar. Ora, os infratores costumazes da legislação eram os patrões, homens insensíveis e cruéis, que agiam como se fossem os donos da verdade e da lei, não restando dúvidas de que os verdadeiros criminosos eram os grandes latifundiários, que deveriam ser processados e condenados com fundamento na famigerada Lei de Segurança Nacional e não, os líderes sindicais dos camponeses, que lutavam pela aplicação da legislação aprovada pelo governo federal. Os que desobedeciam aos preceitos legais eram os patrões, entretanto, como vemos no curso da história em nossa pátria, as leis que beneficiam a classe operária, para poder ser aplicada, sempre custou o sangue e a vida de muitos trabalhadores e, em nossa região não poderia ser diferente. A par das reivindicações por melhores condições de trabalho e conseqüentemente melhorias salariais, o sindicato apoiou ostensivamente no ano de 1962, a invasão da Fazenda Jacutinga, invasão esta coordenada pelo líder camponês e comunista Jofre Correa Netto, que apoiado pelo então jovem líder estudantil José Ivan Gibin de Matos, pelo professor Alzirio do Nascimento, com a retaguarda das lideranças sindicais de toda a região, com grande arregimentação de trabalhadores rurais, coordenada pela entidade de classe, com a montagem do acampamento nas terras da fazenda, mais especificamente nas proximidades da casa sede, sendo que para dificultar a ação costumeira das forças repressoras, eternamente a serviço da burguesia, providenciaram a abertura de “valetas” nas vias de acesso a propriedade rural e cortaram os fios telefônicos que serviam a propriedade.
Como diríamos nos dias atuais, o bicho pegou.
Ousaram os trabalhadores rurais, capitaneados por Jofre Correa Netto, invadir uma propriedade rural do poderoso J.J. Abdala, conhecido mau patrão, entretanto, representante legítimo da burguesia decadente nacional, e tal afronta jamais poderia ficar impune.
Os trabalhadores, como sempre desarmados, em busca da solução para os problemas rurais e da reforma agrária, mais uma vez acabaram vencidos pela repressão e as lideranças do movimento, acabaram presas, processadas e condenadas por infração a Lei de Segurança Nacional. As lideranças operárias que permaneceram em liberdade, lançaram campanha nacional pela libertação de Jofre Correa Netto, o único preso político de então a nível nacional, com a elaboração de cartazes, panfletos e manifestações de rua, denunciando a arbitrariedade. A condenação havia sido bem fundamentada pelo Juiz de Direito da Comarca de Pirajuí, Dr.Luis Francisco Giglio, que buscou de forma caprichosa não deixar brechas legais, para os recursos apresentados pela defesa do líder camponês. O Juiz, que se notabilizava pela aplicação severa de penas contra lideranças operárias, sabia de antemão, que as pressões populares ocorreriam em busca da liberdade, e buscava cercear as oportunidades de defesa, acabando por proferir uma sentença de teor nitidamente fascista, onde demonstrava de forma nítida e cristalina a sua verdadeira faceta antioperária, de nada adiantando os argumentos da defesa apresentada pelos jovens causídicos bauruenses Joaquim Mendonça Sobrinho e Análio Gilberto Smith, pois para o magistrado interessava única e exclusivamente a condenação.
Não me venham dizer que a sentença condenatória contra Jofre Correa Netto e José Ivan Gibin de Mattos, líderes da invasão da Fazenda Jacutinga, foi exarada no estrito sentimento da lei, pois se assim fosse, o saudoso doutor Antonio Macedo de Campos, juiz de Direito da Comarca de Bauru, no pós-golpe militar de 64, teria condenado todas as lideranças operárias e estudantis bauruenses que foram processadas por infração a tacanha lei 1802 – Lei de Segurança Nacional. A consciência democrática do Dr.Macedo não permitiu que as condenasse. A consciência nada democrática do então juiz de Pirajuí enviou Jofre para a cadeia e condenou José Ivan que tão-somente não foi parar na cadeia, pois se evadiu e ao obter a confirmação da sentença, evadiu-se do país, buscando no exílio político a liberdade que o democrata Luis Francisco Giglio, quis tolher.
A invasão da fazenda, a prisão dos líderes do movimento e a atuação conseqüente das lideranças dos trabalhadores rurais, além da solidariedade popular em torno da figura carismática de Jofre calaram fundo n’alma dos repressores e fascitóides de toda a nossa região. Como poderiam ter a ousadia, os sindicalistas, políticos marxistas oriundos da classe operária e até humildes trabalhadores rurais de levantar a voz e realizarem campanha pela libertação do arremedo de líder – nas palavras do repressor-poeta Rossa Netto – Jofre Correa Netto. Era muita audácia e ousadia deste “Zé povinho” querer ler jornais e manifestos onde ficavam claros os seus direitos trabalhistas. A classe dominante e seus defensores incrustados na repressão, não admitiam em hipótese alguma que qualquer trabalhador lesse e conseqüentemente se instruísse.
Logo nos primeiros dias de Abril de 1964, que ao contrário de Abril de 1974 em Portugal, foi triste e doloroso para o povo brasileiro, que da noite para o dia viu-se desprovido de suas lideranças, que na calada da noite, foram seqüestrados pela polícia, como de hábito agem os repressores e todos aqueles que tem algo a esconder e, em Presidente Alves não poderia ter sido diferente. O Sindicato foi invadido, os membros da diretoria presos e os materiais encontrados confiscados. Lá, tal qual em Bauru e em todo o Brasil, jornais, livros, publicações diversas, foram apreendidos pela polícia, como prova inconteste da atuação subversiva dos trabalhadores e suas lideranças. E neste período, voltava a tona o episódio da invasão da Fazenda Jacutinga, nos eternos relatórios de Rossa Netto, o fiel discípulo de Hitler, Mussolini e Silvio Marques Júnior.

“... nos anos que antecederam a revolução de 1964, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Presidente Alves, notabilizou-se por congregar em sua diretoria, elementos comunistas de alta periculosidade, como era o caso específico de Francisco Caetano, então presidente daquele sindicato e de Luis Vieira, secretário do mesmo sindicato, seguindo-se os demais membros da diretoria...”.

Este relatório datado de 1970 mostra que o Carlão continuava o mesmo irresponsável, sempre colocando “demais membros”, “não nominados” etc..., em seus relatos, como se a nossa região estivesse apinhada de comunistas. Comprovadamente, este “tira” era um grande falseador da verdade, para não dizer mentiroso.
Continuava o seu relatório:

“ ... o sindicato nesta época serviu de centro de operações para o líder camponês comunista Jofre Correa Netto, bem como foi por seus seguidores transformado em centro de apoio logístico para garantir com suprimentos o líder comunista e seu séqüito de esquerdistas nas atividades guerrilheiras por ele desenvolvidas. A Sebastião dos Reis, coube a tarefa de arregimentar os trabalhadores rurais, proporcionando a Jofre, os homens que necessitava para engrossar as fileiras da subversão, para invadir e tomar, como efetivamente invadiu e tomou, em estilo de comando a mão armada, a já mencionada Fazenda Jacutinga, transformando-a segundo palavras de Sebastião dos Reis na primeira expropriação de terras dos capitalistas. Com a finalidade de impressionar a massa de homens que o seguia, Jofre hasteou as bandeiras nacional e paulista, procurando dar uma idéia de que aquela seria uma ação com amparo legal...”.

Interessante neste relatório, que concede grande importância ao trabalho de arregimentação realizado por Sebastião dos Reis, para no final acusá-lo de “ inculto, incapaz, explorador, débil mental e amoral”, ficamos pensando após ler este documento, que se a liderança era qualificada pelos repressores como inculta e incapaz, como o rotula o desqualificado repressor, o que teria efetivamente ocorrido em nossa região, se as lideranças fossem “ capazes e cultas”. Com certeza, não teríamos, neste princípio de milênio, as lutas do Movimento Sem Terra, pois estaríamos vivendo em uma pátria liberta dos grilhões imperialistas. Concluindo o seu relatório, o investigador do DOPS/Bauru, sugeria e solicitava aos seus superiores o fechamento da entidade sindical, pois ia contra os interesses dos proprietários rurais da região.
Portanto, o episódio da invasão da Fazenda Jacutinga, no início dos anos 60, representa o início efetivo da luta pela reforma agrária na região centro-oeste do Estado de São Paulo, e tal qual nos dias atuais, as suas lideranças foram perseguidas, difamadas e presas com base na legislação em vigor, sempre usada pelos detentores do poder para defender os proprietários dos latifúndios improdutivos.
Esperamos que um dia, consigamos levantar toda a história desta já lendária invasão, buscamos aqui resgatar as figuras de Jofre Correia Netto (membro das Ligas Camponesas de Francisco Julião), José Ivan Gibin de Mattos, Francisco Caetano, Luis Vieira e Sebastião dos Reis como os precursores da luta pela Reforma Agrária e o pagamento honesto, justo e correto aos trabalhadores rurais em nossa região.
Da mesma forma que no episódio da greve de Triagen, não conseguimos levantar os dados de todos os envolvidos neste episódio e contamos com a sua ajuda, amigo leitor, para completarmos o levantamento histórico.

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