quarta-feira, 29 de abril de 2009

UMA VÍTIMA DO ARBÍTRIO.

Quando, nos anos em que existia um sindicalismo forte e atuante, lembro-me de sua atuação em defesa de sua classe, lutando, reivindicando, em favor de seus companheiros da extinta Sorocabana. Lembro-me das greves reivindicatórias da época e de sua presença à frente dos movimentos sempre altivos e independentes. No movimento golpista de 1964, em uma autentica prova de medo da liderança operária, prenderam-no juntamente com dezenas de operários e estudantes.
Após sua prisão, um novo choque, com sua demissão e a de mais quarenta e um companheiros dos quadros da ferrovia. Lembro-me de sua revolta contra o governador da época, que em um mesmo ato, chamou de volta ao serviço ferroviários aposentados e demitiu-os.
Você, meu velho pai, perdeu trinta anos de serviços prestados a ferrovia e ao estado, com muito amor. Somente lhe restou uma herança, uma asma agravada posteriormente com o surgimento de outras complicações, decorrentes principalmente das noites frias que passou na prisão ( ou faculdade, como o Sr. mesmo preferia dizer).
Não chegavam as preocupações com as noticias de falecimentos de companheiros, que junto com você haviam sido demitidos, com medo de que as viúvas pudessem estar em má situação financeira. Não chegavam os aborrecimentos contra as arbitrariedades e a luta pela sobrevivência. Ainda teve que vir Janeiro de 1969 e a nova injustiça cometida, com mais uma prisão. Uma revolta maior surgiu em seu interior. Revolta contra prisões, perseguições, mutilações, demissões.
Seu sentido de solidariedade nunca arrefeceu. Mesmo sabendo que as causas que levaram a sua prisão foram errôneas . Sabia que
se basearam nos antecedentes de um homônimo seu, mas nunca protestou ou brigou sozinho.
Sempre dizia que queria ser reintegrado à ferrovia, juntamente com todos os companheiros e nunca sozinho. Da mesma forma que sempre dizia, de que seus netos é quem iriam vencer a demanda contra o Estado, se o regime arbitrário persistisse.
Entusiasmava-se nos últimos tempos com relação as noticias relativas a ANISTIA, anistia esta que não teve tempo de saborear, curtir em seu jeito típico.
Mas, meu velho, os regimes ditatoriais são sempre assim, só fingem anistiar os mortos. Mas no alto de sua tranqüilidade eu imagino que está no mínimo rindo de seus algozes, enfim os algozes do povo. Como você mesmo dizia:
“Herói não é aquele que vence uma batalha, mas aquele que atirado ao pó da derrota, consegue ter ânimos para continuar lutando!”
E para mim o senhor foi um herói, pois embora perseguido, demitido, encontrou ânimos para continuar lutando.
Meu velho, somente esta última promessa:
No dia em que o povo brasileiro for anistiado, nós festejaremos a agonia de seus algozes.

Publicada em 19/09/78
no “ Diário de Bauru”.
autoria: Antonio Pedroso Júnior.

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