segunda-feira, 27 de abril de 2009

DELAMARE MACHADO DA SILVA

“A sabedoria não nos é dada. É preciso descobri-la por nós mesmos, depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós”.
Marcel Proust.
Nascido aos oito de fevereiro de 1926, em Tatui-Sp., filho de Aristides Machado da Silva e de dona Dolores Pires de Campos, sendo casado com dona Ercira Garcia Machado, natural de Presidente Alves, com quem teve duas filhas: Lenira e Lais tendo residido por longo tempo na cidade de Bauru, onde militou no então legal Partido Comunista do Brasil e possuía uma gráfica na rua Sete de Setembro. Em 1947, foi expulso dos quadros do PCB, atitude que até hoje é questionada por seus camaradas de luta e mesmo alijado dos quadros partidários, continuou militando por muito tempo ao lado dos antigos companheiros, nas lutas operárias e populares que aconteciam em nossa cidade, notadamente as atinentes a Paz Mundial, Contra a Carestia, na Defesa do Petróleo, Cruzada Humanitária, em defesa da cultura nacional, dentre outros movimentos desenvolvidos pelo Partido em conjunto com a sociedade civil de nossa cidade.
Em 30 de Maio de 1952, os comunistas tentaram realizar em nossa cidade, um comício pró-Paz Mundial e em defesa da Cultura Nacional, o que foi proibido pela polícia política, que inclusive enviou para cá, o Dr. Hugo Ribeiro da Silva, para colaborar na repressão ao evento, que contaria inclusive com a presença de inúmeros representantes da imprensa paulistana, se destacando entre eles: Afonso Schmidt, João Tadeu Cadorniga, além dos militantes da classe trabalhadora de São Paulo, Enio Sandoval Peixoto e Joaquim Alves Pereira.
Neste dia, a polícia política comandada pelo delegado Hugo e pelo delegado do DOPS/Bauru, Appio Moreira Prattes, comandou a prisão dos seguintes militantes políticos: WENCESLAU COELHO, sua esposa ARACY DOS SANTOS COELHO e o filho MARIO COELHO, sendo que dona Aracy era a representante local, da Federação das Mulheres do Brasil, tendo sido uma das primeiras mulheres a serem candidatas a Câmara Municipal local. Prenderam ainda Antenor Dias, Leonel Maia, Hélio Alonso, Josias Mendes de Lima, Antonio Mário Camaforte, Nabor da Graça Leite, os militantes e jornalistas vindo de São Paulo, além de Delamare. Depois de advertidos pelas autoridades policiais, foram colocados em liberdade, com a recomendação expressa de não mais tentarem realizarem manifestações em prol da Paz Mundial e da Cultura.
São as ironias que encontramos invariavelmente ao longo do tempo, pois a polícia política insistia em inibir a realização de qualquer ato público, que pudesse estar sendo organizado, realizado, com a participação de comunistas.
Era considerado crime na época defender a Paz Mundial, por ser esta uma das bandeiras da então União Soviética. Comunista em praça pública defendendo a paz, a cultura ou a soberania nacional, era rechaçado com cacetetes, bombas e tiros pela eficiente polícia política.
Vamos, entretanto retornar a falar de Delamare, que mesmo quatro anos depois da sua expulsão do partido, continuava a lutar ao lado de seus antigos companheiros, na defesa e divulgação das propostas que considerava como justas. Os poucos companheiros, que ainda encontram-se entre nós, lembra-se do camarada sendo que alguns, recordam com restrições pela sua atuação partidária, mas com lembranças inesquecíveis de sua solidariedade e companheirismo.
Mudou-se de nossa cidade, sempre exercendo funções ligadas à tipografia, sem entretanto deixar de lado a militância política. No final dos anos 60, fundou ao lado de outros companheiros, o Comitê de Solidariedade Revolucionária, comitê este destinado a prestar assistência aos presos políticos e seus familiares, sendo uma entidade mais de cunho assistencial do que ideológico, sendo certo que teve suas atividades encerradas em final de 1972.
A criação desta entidade e sua militância no proscrito Partido Comunista, mesmo tendo sido expulso no ano de 1947, renderam-lhe mais uma prisão em 10 de Maio de 1973, tendo sido libertado tão-somente em 24 de maio do ano seguinte, condenado que foi por infração a Lei de Segurança Nacional, pela Primeira Auditoria Militar de São Paulo. Libertado condicionalmente, era obrigado a comparecer periodicamente perante a Auditoria, para assinar o “Termo de Comparecimento" e prestar contas de suas atividades, comerciais e políticas.
Entretanto, não foi tão-somente Delamare a sofrer as represálias da ditadura militar, pois igualmente sua esposa, Ercira, em 28 de Abril de 1964, foi detida pelo DOPS/SP., onde acabou prestando depoimento sobre suas atividades políticas, ao então delegado José Paulo Bonchristiano. Sua filha, Lais foi igualmente detida em 07 de Novembro de 1979, sendo ouvida pelo Dr. Orlando Domingos Jeronymo, para prestar esclarecimentos sobre suas atividades junto ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Finalmente, a filha Lenira conheceu durante sua militância política, o jornalista Altino Rodrigues Dantas Júnior, que esteve preso, como refém da ditadura militar, durante longos nove anos.
Dito isto, tentaremos traçar um breve perfil da luta e coerência de Delamare, que poderá inclusive ocasionar melindres em alguns de nossos velhos e históricos militantes, pois tendo sido o secretário político do Partido Comunista em Bauru e sendo injustamente expulso, não se deixou vencer pelo desânimo e muito menos abandonou as bandeiras marxistas atiradas ao chão, continuando a atuar politicamente no Partido Socialista Brasileiro, o PSB e passando a doutrina socialista para seus familiares. Conhecemos muitos militantes políticos da esquerda, que eram verdadeiras feras para arregimentar novos militantes e, no entanto, não conseguiam e não conseguem coesionar a própria família.
Velhos companheiros lembram do espírito de solidariedade de que era possuidor e isto se comprova com o passar do tempo, quando funda, com a colaboração de outros companheiros, o Comitê de Solidariedade Revolucionária, com o intuito de oferecer ajuda aos presos políticos, que eram mantidos como reféns da ditadura militar.
Sem sombra de dúvidas, mesmo sopesando as divergências político-ideológicas, DELAMARE MACHADO DA SILVA, foi um dos grandes nomes que passaram por nossa cidade e que defenderam com orgulho, ardor e entusiasmo os ideais da classe operária.

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