segunda-feira, 27 de abril de 2009

ANTONIO PEDROSO.

“Somos todos irmãos não porque seja o mesmo o sangue que no corpo levamos: o que é o mesmo é o modo como o derramamos”.

(Ferreira Gullar)
Nascido em Botucatu, Estado de São Paulo, aos três de setembro de 1919, filho do ferroviário Brasílio Pedroso de Moraes e da dona de casa Laura Fernandes Cardoso, tendo casado com a comerciante Alzira dos Santos Pedroso, com quem teve os filhos Arlete e Antonio. Aos vinte e três de agosto de 1934, com quinze anos incompletos, começou a trabalhar na então Estrada de Ferro Sorocabana, sendo que logo se associou ao Sindicato dos Ferroviários, que veio a ser extinto no início da década de quarenta, em decorrência da proibição constitucional do funcionário público organizar-se em entidades sindicais. Em uma tática nitidamente divisionista, a direção da Estrada de Ferro começou a fomentar a criação de associações por categorias profissionais, e estas diferentes categorias começaram a criar suas entidades, surgindo as Associações dos Telegrafistas, dos Chefes de Trem, dos Conferentes etc..., dividindo obviamente e enfraquecendo a classe ferroviária, que já não possuía a unidade anterior para organizar a luta por seus direitos
No início da década de 50, organizou-se a União dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, congregando enfim, todas as categorias existentes nos quadros funcionais da ferrovia, sendo que Pedroso começou a participar de suas atividades, sendo por bom período, até a deflagração do Golpe Militar de 1º de Abril de 1964, o Delegado Regional da entidade na cidade de Bauru.
No final da década de 50, início da década de 60, liderou em Bauru e região, inúmeras greves dos ferroviários da Sorocabana, que reivindicavam melhores salários, plano de cargos e salários, pagamento de salário família, 13º salário etc..., tornando-se de bom alvitre relembrar que a primeira categoria profissional a receber o 13º salário no Brasil, foi a dos ferroviários da Sorocabana, no início da década de 60.
De 24 a 27 de janeiro de 1962, realizaram greve em busca de aumento salarial na ordem de 45%, estabelecendo um salário mínimo de CR$ 6.000,00 (seis mil cruzeiros), sendo que a pauta de reivindicações havia sido definida no Encontro dos Ferroviários, realizado em 11 e 12 de Novembro de 1961, na cidade de Botucatu. Em final de 1963, a Sorocabana realiza nova greve e acaba por ficar dezoito dias com suas atividades paralisadas, sendo que em 1º de dezembro daquele ano, Pedroso concedia entrevista ao jornal “Diário de Bauru”, onde dentre outras coisas, afirmava: “Se nós, ferroviários estamos em greve, em luta constante por melhores salários, deva-se tudo isso ao governador Adhemar de Barros, que nos enganou. A greve também é um protesto contra as admissões na ferrovia, de elementos sem qualificação aos altos cargos, por injunção política, o que desrespeita o Estatuto dos Funcionários”.
Em janeiro de 1964, participa do Congresso Nacional dos Ferroviários, realizado em Recife-Pe, e volta barbarizado com a miséria que presenciou e com a quantidade de crianças pedindo esmolas na rua.

“Vi com meus próprios olhos, os Capitães da Areia de Jorge Amado”, costumava dizer, mesmo sabendo que o famoso romance do escritor era baseado na realidade baiana.

Com o Golpe Militar de 1964, logo no dia 3 de Abril, foi preso e conduzido a Delegacia de Polícia local, sendo posteriormente transferido para a Cadeia Pública local, tendo permanecido preso por 54 dias. Encontrava-se no dia 3, nas dependências da Delegacia de Polícia local, providenciando o licenciamento de um veículo de sua propriedade, quando foi avisado por um policial amigo, de que a Força Pública, sob o comando do então Tenente Ventrice, havia acabado de sair em diligência até sua residência, com a finalidade de prendê-lo, aconselhando que Pedroso empreendesse fuga. Este, ao contrario de fugir, foi ao encontro da polícia, preocupado com a integridade física da esposa e filhos. Quando desceu da “coréinha”, trem de subúrbio que fazia a ligação Estação Central-Curuça, no Armazém Regulador de Café da Estrada de Ferro Sorocabana, foi recepcionado pelo Tenente Celso Ventrice e mais vinte e seis soldados da então Força Pública, fortemente armados de metralhadoras, em busca do perigoso líder comunista. Calmo, Pedroso comunicou ao Tenente que era o encarregado do Armazém, que mantinha estocadas 300.000 sacas de café e que precisava comunicar aos seus superiores a sua prisão, para que estes indicassem um encarregado substituto. Com a concordância do Tenente e por este acompanhado, dirigiu-se até o escritório do armazém, onde através do Telégrafo, comunicou Botucatu de sua prisão e como o telégrafo era ouvido por toda a linha e Bauru era a primeira cidade, por direta interferência da FAC, a realizar prisões de lideranças sindicais, inúmeras lideranças ferroviárias de todo o Estado, ao tomarem conhecimento de sua prisão, evadiram-se.
Presos e sem a formalização de inquéritos ou processos, viam os presos bauruenses o tempo passar, sem que nada se resolvesse. Ora, iam ser libertados. Ora, iriam ser enviados ao navio prisão Raul Soares. À época, os investigadores de polícia de Bauru, Gerson e Carlana, diziam a sua esposa, que por CR$ 200,00 (duzentos cruzeiros), o advogado Élio Vanuzzini conseguiria sua libertação. Comunicado do fato, Pedroso não aceitou a proposta, afirmando que se nada pagara para entrar, nada iria pagar para sair, sendo libertado, juntamente com os presos remanescentes, em 25 de Maio. Na última semana de prisão, acometido de forte crise de asma, foi internado juntamente com o psicólogo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, professor Romeu Cajueira de Freitas, no Hospital Salles Gomes, pelo Dr. Ozires Domingues. Já que estamos, ao longo dos anos, resgatar a verdade histórica cumpre-nos deixar registrado que o único médico, dentre os muitos procurados, que aceitou consultar os “perigosos comunistas presos”, foi o Dr. Ozires, que os consultou na Cadeia Pública e imediatamente determinou a internação de ambos. Internados, com escolta policial, mas fora da Cadeia por alguns dias.
Às vésperas da libertação, o professor Romeu recebeu a visita de parentes do Estado do Paraná, que na verdade vieram com a finalidade de resgatá-lo da prisão. Pedroso dormia, ou melhor, fingia dormir enquanto Romeu e seus parentes traçavam o plano de fuga. Colocariam soníferos no café, para que os soldados da escolta dormissem e iriam embora para o aeroporto local, onde o avião de propriedade dos parentes de Romeu se encontrava, e alçariam vôo para uma fazenda no Estado do Paraná, onde esperariam a poeira assentar. Tudo combinado, um dos visitantes vira-se para Romeu e apontando para Pedroso, pergunta:

“E esse aí, como fazemos?”.

Imediatamente, Pedroso abre os olhos e retruca:

“Eu vou também, ué”.

Risadas gerais e tudo fica combinado para a fuga que ocorreria na noite seguinte, que acabou por não se tornar necessária, pois na tarde do dia seguinte chegava a ordem de libertação de ambos.
Saindo da prisão, reassume seu trabalho na Estrada de Ferro, até que em outubro de 1964, mais precisamente no dia 7, é surpreendido com o Decreto assinado pelo Governador Adhemar Pereira de Barros, demitindo-o a bem do serviço público, com fundamentação legal no artigo 7º, alínea “g”, do Ato Institucional de 9 de Abril do mesmo ano. Contava a época da demissão, com 29 anos, 10 meses e 28 dias de serviços prestados a Sorocabana, sendo que a ferrovia abriu processo administrativo e não o ouviu, cerceando totalmente a sua defesa. Era o início do regime autoritário e mais uma vez, os fascitóides que tomavam conta do poder, tentavam com as demissões, matar as lideranças da classe trabalhadora de fome.
Demitido e sem possibilidade de arrumar novo emprego, pois jamais conseguiria o famigerado “Atestado de Idoneidade Político e Social”, exigido na época, por exigência dos militares, Pedroso optou por vender alguns bens que possuía e construiu um salão comercial, na rua Campos Salles, 9-08, em Vila Falcão, onde instalou em nome da esposa, uma quitanda e sorveteria, a qual denominou de “Mercadinho Carcará”, em homenagem a ave nordestina, que diz a lenda, jamais morre de fome, sendo que passou a residir com a família nos fundos deste estabelecimento. Durante o período compreendido entre a demissão e a construção do salão comercial, trabalhou como corretor de imóveis para a Companhia Salvador Filardi, a convite de seus sócios Hudson Fiore Dal Colleto e Hugo Dal Colleto, que entendiam como sendo um absurdo, um pai de família ser proibido de trabalhar. Este gesto de Hudson e Hugo, jamais foi esquecido pelos familiares de Pedroso.
Depois de iniciar as atividades com o “Mercadinho Carcará”, toda a noite notava a presença, na esquina de seu estabelecimento, de um guarda noturno, que ficava horas a fio parado. Desconfiado, solicitou a um amigo e freguês que sondasse o guarda, para ver se conseguia descobrir o que este fazia ali, todas as noites. Surpresa, pois o guarda disse que ali ficava a mando do Delegado de Polícia, para ver se chegava alguma condução transportando mercadoria sem nota. Não, não era nada disso, e a grande realidade era que o Delegado queria saber se Pedroso continuava a se reunir com seus companheiros de Sindicato e Partido. Dura e triste ilusão, pois a grande maioria no pós-golpe, desapareceu. Por ali apareciam para bater um papo ou tomar um sorvete: Arcôncio, Pebá, Mario Levorato. Em 1967, o então estudante Milton Dota mudou-se para próximo da quitanda e começou a freqüentá-la. Nesta época, além do Mercadinho, Pedroso empacotava produtos alimentícios, como funcionário da Cooperativa de Consumo dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, com a finalidade de completar o tempo de serviço e recolhimento devido a Previdência Social e aposentar-se. Arcôncio, igualmente demitido da Sorocabana, foi contratado igualmente para trabalhar na Cooperativa na cidade de Botucatu, e ia, sempre nos finais de semana, conversar sobre os problemas enfrentados pela Cooperativa. Pedroso, ficava irritado quando companheiros de outrora, passavam defronte ao estabelecimento sem parar ou ao menos cumprimentar. Era o medo acentuado da repressão, que transformava os punidos pela redentora em cães sarnentos.
Em 1º de Maio de 1968, juntamente com companheiros de todo o Estado, comparece a uma comemoração da data, na cidade de Botucatu, ocasião em que estava tudo acertado e segundo informações, seria anunciada pelo governador Roberto de Abreu Sodré, a reintegração dos ferroviários da Sorocabana. Ferroviários de todo o Estado comparecem ao evento, e a delegação de Sorocaba, numerosa, levou inclusive um padre com a finalidade de realizar uma missa campal de Ação de Graças, como agradecimento pela reintegração dos demitidos. Após uma longa espera, sobe ao palanque o vereador botucatuense, João Batista Domene, ex-presidente da União dos Ferroviários na década de 50, para anunciar que o governador recebera ordens de Brasília para não comparecer ao ato, desvanecendo-se o sonho da reintegração.
Quando da realização das eleições municipais de 1968, Pedroso e mais alguns companheiros realizaram uma campanha quase clandestina pelo voto nulo, com um detalhe, como seu freguês e amigo Milton Dota, encontrava-se preso em conseqüência do Congresso da UNE em Ibiúna, a palavra de ordem era anular o voto, escrevendo na cédula eleitoral: “Liberdade para Dota”. Algumas dezenas de votos foram anulados com a citada frase e seus idealizadores considerados culpados pela não reeleição de Gasparini para vereador.
E mesmo estando afastado da militância partidária e do movimento sindical, voltou a ser preso em 07 de Janeiro de 1969, sendo conduzido ao DOPS/SP, juntamente com João Batista Dias e Ramiro Pinto. Com eles foi preso Edison Bastos Gasparini, sendo que este foi libertado na cidade de Piratininga, após ser ouvido em depoimento. Preso em 07 de Janeiro, somente foi ouvido em 23 de Janeiro, pelo Dr. Wanderico de Arruda Moraes, hoje residente em Jaú, sendo libertado no dia seguinte. Desta prisão, guardava sempre a lembrança do gaúcho Benjamin, que desesperado por ver seu filho de 16 anos ser torturado em sua frente, para que este confessasse suas atividades políticas, tentou o suicídio na cela. Sempre lembrava com carinho das conversas que tivera com este companheiro gaúcho, e por mais que pesquisássemos, não conseguimos descobrir o nome verdadeiro deste combatente dos pampas brasileiros.
Esta prisão ocorreu sob a acusação de pertencer a “Ala Marighela” do Partido Comunista Brasileiro e ao chegar em sua casa, na manhã de vinte e cinco de janeiro, foi surpreendido com a visita do companheiro e ex-tesoureiro da União dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, Francisco Gomes, que havia optado pela luta armada e encontrava-se na clandestinidade. Sabendo que Pedroso acabara de chegar da prisão, Chico demora-se pouco, informa-se sobre a situação e se retira.
Antes, porém, comenta:

“A polícia me procura para matar, mas não morro sem levar um comigo!”.

Nunca mais foi visto e nem noticias a seu respeito chegavam, sendo que até a véspera de sua morte, Pedroso mostrava preocupação com o destino do antigo e leal companheiro, achando que o mesmo encontrava-se preso ou morto. Um ano após sua morte, em 07 de Setembro de 1979, Gomes retornou do exílio. Havia partido para o Chile e com a queda de Salvador Allende, refugiou-se em Cuba.
Em 1976, o DOPS/Bauru em relatório assinado pelo investigador Durval Ricci, informa a seus superiores que o perigoso agitador comunista Antonio Pedroso estava retornando as atividades partidárias, atuando no MDB. Irreverente, brincalhão, Pedroso arrumava motivos para humor, até nas horas negras e amargas da vida. Faleceu em Bauru, aos 09 de Setembro de 1978, com 59 anos de idade, sem ser anistiado ou reintegrado à ferrovia. Decorridos mais de vinte anos de sua morte, o governador Mário Covas, acatando parecer emitido pela Procuradoria Geral do Estado, parecer este elaborado pelos Drs. José Damião de Lima Trindade, Flávia Piovesan e Patrícia Arzabe, nos autos do Processo PGE 2136/98, declara a Anistia Política de Antonio Pedroso, ato este publicado no Diário Oficial de 12 de Janeiro de 1999, documento este necessário para que sua viúva reivindicasse seus direitos junto a Previdência Social e a FEPASA.
Antonio Pedroso, por decreto do ex-Prefeito Bauruense José Gualberto Tuga Martins Angerami, acatando indicação do ex-vereador Carlos Roberto Ladeira, denomina uma praça pública na Vila Industrial, em Bauru.
Um de seus adágios preferidos era:

“Herói não é aquele que vence uma batalha, mas sim, aquele que atirado ao pó da derrota, consegue ter ânimos para continuar a luta”.

Um comentário:

  1. Há um outro livro que não me lembro o nome todo. Só sei que começa com porões....Queria saber quem escreveu e onde posso adquiri-lo, se ainda, houver no mercado de livros.Subversivos anônimos eu já adquiri.Obrigada.

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