segunda-feira, 27 de abril de 2009

JOÃO BATISTA DIAS

“No Brasil, homem público é o masculino de mulher pública".
(Ziraldo Alves Pinto).


Jamais alguém poderá falar da luta sindical ou da oposição ao regime militar em nossa cidade, no final da década de 50 e nos anos 60/70, sem abordar a luta do protético da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, João Batista Dias, conhecido como “Pebá” ou “Tigrão”. Nascido em Araçatuba, Estado de São Paulo, aos 07 de Abril de 1928, filho do senhor José Dias e da senhora Dolores Repizo Dias, casou-se com dona Odânia Queiroz Dias, com quem teve quatro filhos: Edmilson, João Filho, André Luiz e Yara, tendo ainda mais dois filhos, falecidos na infância: Sérgio e Elaine. De seu relacionamento com Joaninha Barroso Paula, teve a filha Juliana. Era um verdadeiro camarada, na acepção do termo, afetuoso, amigo, companheiro, solidário, não sendo, entretanto de levar desaforos para casa, principalmente aqueles advindos de adversários políticos. Corajoso e destemido, nunca vacilou em expor publicamente suas idéias políticas, quer em reuniões partidárias, quer em público, o que acabou por lhe render inúmeras prisões, sendo que na penúltima, em meados de setenta, foi bárbara e cruelmente torturado, nas dependências do DOPS/SP, entretanto, o velho combatente das causas operárias, com seu bom preparo físico decorrente da prática de esportes, não se curvou ante a violência dos torturadores, sendo certo que estas torturas renderam-lhe seqüelas até o final de seus dias. Tinha verdadeiro ódio por alcagüetes, torturadores e principalmente contra os falsos revolucionários. Certa vez, o encontramos dando risadas em seu laboratório de prótese dentaria e indagamos o porque da alegria e de pronto nos respondeu que não era alegria e sim raiva. Havia acabado de ler um depoimento de um individuo que dizia ser revolucionário, no livro “A esquerda armada no Brasil”, de Antonio Caso, onde este cidadão afirmava que ao ser preso, engolira uma cápsula de cianureto e este estava estragado, não lhe ocasionou a morte esperada e sim e tão-somente uma forte diarréia.

- Cara de pau e mentiroso! Cianureto não estraga!

O serviço secreto da Delegacia de Ordem Política e Social – DOPS -, em 08 de Janeiro de 1969, um dia após a sua segunda prisão, entre outras coisas diz que Pebá era um dos elementos comunistas de projeção no Estado de São Paulo, que continuavam em atividade constante, em busca da derrubada do regime militar e que havia comparecido, em 1965, às festividades comemorativas de 9 de Julho, defronte a Faculdade de Direito de Bauru, onde juntamente com outros dois conhecidos agitadores (não nominados) comentava em alto e bom som que “os paulistas deveriam comemorar o nove de julho com armas na mão, a fim de libertar o povo brasileiro dos grilhões militares em que se encontravam presos”. Igualmente neste relatório, o DOPS/Bauru informava que em 13 de Setembro de 1965, havia embarcado rumo a União Soviética, com o intuito de realizar cursos e treinamentos militares, visando posteriormente, utilizar os conhecimentos adquiridos na luta arma armada deflagrada com a finalidade de derrubar o regime militar brasileiro. Neste mesmo relatório, do SS do DOPS, é informado que em 09 de Dezembro de 1967, a Ala Marighela do Partido Comunista Brasileiro reuniu-se clandestinamente em uma chácara localizada na periferia de Bauru, com a finalidade de organizar o Comitê Regional da Ala, sendo que foram escolhidos pelos militantes presentes, Edison Bastos Gasparini e João Batista Dias, como responsáveis pelo secretariado da organização na região, sendo Pebá o escolhido para ficar como responsável pela linha Noroeste, de Bauru a Três Lagoas. Em outro informe do DOPS, datado de 16 de janeiro de 1969, é novamente acusado de participar de reuniões da Ala Marighela, posteriormente denominada como Ação Libertadora Nacional e que ao lado de Joaquim Câmara Ferreira, Apolônio de Carvalho, Jover Telles e do próprio Marighela, dentre outros, haviam decidido pelo justiçamento do coordenador da FAC, promotor Silvio Marques Júnior e do comandante do Forte Itaipu, Coronel Antonio Erasmo Dias. Nesta prisão de 07 de Janeiro de 1969, juntamente com os igualmente ferroviários Antonio Pedroso e Ramiro Pinto, começava a demonstrar de forma definitiva e cristalina o seu caráter. Somente veio a ser ouvido em interrogatório oficial aos 27 de Março, praticamente três meses depois de sua prisão. Ouvido pelo Delegado do DOPS/SP, Dr. Wanderico de Arruda Moraes, hoje aposentado e residindo na cidade de Jau e pelo escrivão Torão Hozocawa, declarou entre outras coisas que foi militante do PCB, que continuava sendo simpatizante e defensor do marxismo, que continuava a ler obras sobre a filosofia que defendia e que naquele momento não estava filiado a nenhum partido ou organização clandestina, de cunho marxista. Foi liberado no dia seguinte. Todavia, aos cinco de maio de 1970, nosso combatente voltava a ser preso, e em outubro de 1979 narrava desta forma a sua prisão, no trabalho-denúncia “Subsídios para a História da Repressão em Bauru”:

“Estava fazendo uns negócios na cidade e quando retornava para o meu trabalho, fui barrado na porta por vários policiais armados de metralhadoras. Fui algemado e levado para a Delegacia de Polícia de Bauru, onde fiquei por umas duas horas, enquanto os policiais que me prenderam foram almoçar. Enquanto isto prestei algumas declarações para o Delegado do DOPS e seu assessor. Levei alguns safanões por parte de investigadores, na frente deste Delegado, Dr. Cremonesi. No momento em que fui preso e já me encontrava algemado, levei um murro na cara”.

Transferido para São Paulo, para as dependências do DOPS paulistano onde foi selvagelmente torturado. Em 1979, ao visitar o então Prefeito de Americana, Waldemar Tebaldi, médico e companheiro de prisão, foi recebido com a seguinte frase:

“Menino, você está vivo! Sinceramente, não acredito que você conseguiu sobreviver!”.

Quem acompanhava Pebá nesta visita era o advogado Milton Dota, que havia ido junto com o companheiro esperar a chegada do exilado bauruense José Ivan Gibin de Mattos, no Aeroporto de Viracopos.
Barbaramente torturado e sem nada dizer sobre suas atividades políticas aos seus algozes, foi aconselhado por seu companheiro de lutas e de cárcere, Raphael Martinelli, a dizer aquilo que sabia e o velho e sábio Raphael, codinome David, tinha razão, pois as suas prisões haviam ocorrido em virtude da delação realizada pelo igualmente ferroviário João Batista Spanier, o Português, da cidade de Assis, que havia se apresentado à repressão e contado tudo aquilo que sabia. Entretanto, aquilo que Spanier sabia e denunciou à repressão era a mesma coisa que Pebá tinha conhecimento e não visão de Martinelli não tinha sentido o companheiro continuar a ser torturado e não “abrindo o jogo”, pois a repressão já tinha conhecimento em virtude da delação covarde de Spanier. A razão neste episódio estava com Raphael Martinelli, mas o duro na história foi convencer o teimoso Pebá, que a todo custo queria agredir o companheiro de longas jornadas políticas, tanto legais como clandestinas. Foi necessária a intervenção dos outros presos para que desistisse de seu intento e depois de acalmado pelos companheiros, foi colocada em discussão no coletivo presente a cela, a proposta de Martinelli, sendo esta aprovada e as 21h 00 horas do dia 04 de junho de 1970, acabou por ser ouvido pelo Delegado Adjunto, Dr. Edsel Magnotti, na presença das testemunhas e funcionários do DOPS: João Baptista Klein e Carlos Alberto Augusto.
A prisão havia sido efetuada na cidade de Bauru, pelos policiais de São Paulo: Dr. Josecyr Cuoco e investigadores Perroni, Parra e Ricardo, auxiliados que foram pelos policiais do DOPS/Bauru. Aliás, o igualmente Bauruense, sargento Carlos Roberto Pittoli, denuncia o investigador Amador Navarro Parra de tê-lo torturado no ano de 1969, quando de sua prisão. Nestas suas andanças pelas prisões e calabouços da tortura do regime militar, Pebá testemunhou e depois denunciou a morte, sob tortura de Virgilio Gomes da Silva, o Jonas, que havia comandado o seqüestro do embaixador americano no Brasil e ainda a morte do militante Olavo Hansen.
Finalmente, encerrou sua série de visitas aos porões da ditadura em 1º de Novembro de 1970, quando foi preso novamente na cidade de Bauru, juntamente com os ferroviários Arcôncio Pereira da Silva e Milton Bataiola; e ainda o jornalista e advogado Oswaldo Penna, sendo conduzidos até o Quartel do Exército da cidade de Lins, onde se juntaram a mais de 200 pessoas de toda a região centro-oeste do Estado de São Paulo, na realidade presas para não fazerem campanha política contra os candidatos da Ditadura, representada na contenda eleitoral pela Aliança Renovadora Nacional – ARENA-.
Afastou-se da militância partidária, retornando tão-somente em 1978, no Movimento Democrático Brasileiro, e aqui cabe, relembrar um fato curioso, com o vereador Gasparini tentando aconselhar os estudantes à não indicarem o nome de Pebá para fazer parte do Diretório Municipal do Partido, pois este era muito visado pela repressão e poderia sofrer novas perseguições. De pronto, os estudantes através de seu porta-voz, Ivonyr Rodrigues Ayres respondeu que não estavam ali para discutir e vetar nomes, e que a indicação de Pebá era uma indicação consensual do grupo e desta forma, no final dos anos 70 o velho combatente iniciava uma nova fase de sua militância política, desta vez legal. Participou de caravanas da Juventude do MDB e da Campanha pela anistia política, além da campanha eleitoral de 82 e da reorganização do Partido Comunista Brasileiro. Em 1980, juntamente com o companheiro de lutas e advogado Milton Dota, retornou a União Soviética, onde foi com a finalidade de assistir às Olimpíadas e rever os camaradas com quem havia convivido na década de 60.
Indiscutivelmente, Pebá foi um dos bauruenses dignos e honestos na defesa de sua ideologia política, tendo por isso passado pelas agruras das torturas desumanas praticadas pelos agentes dos usurpadores do Poder, em nome indevido da defesa da Segurança Nacional e se hoje, praticamos a política partidária com liberdade, Pebá tem uma boa parcela de responsabilidade para que isso se tornasse realidade. Faleceu em nossa cidade, aos 07 de Setembro de 1996, dia da Independência, aos 68 anos de idade, libertando-se da vida terrena e deixando para trás um legado de lutas que deve ser seguido por todos aqueles que almejam um BRASIL livre, democrático e soberano, com fraternidade e sem desigualdades sociais.
JOÃO BATISTA DIAS, com certeza permanece vivo na memória daqueles que com ele tiveram o prazer e o orgulho de conviver, e, entretanto, como recordar é viver, transcrevemos a seguir seu depoimento, de outubro de 1979, para o trabalho-denúncia “Subsídios para a História da Repressão em Bauru”:

“As lutas que travávamos eram puramente reivindicatórias da classe trabalhadora e um dos movimentos que ficou marcado em nossa memória foi uma passeata realizada em 31/03/1964, contra o golpe militar e saímos em mais de duas mil pessoas pelas ruas, sendo que a ordem da tropa de choque da Força Pública, comandada pelo então Tenente Ventrice era de metralhar os manifestantes. A solução encontrada pelas lideranças presentes foi a de se dirigir até a Associação, ocasião em que fomos dispersados por bombas de efeito moral. Nem tudo eram flores naquela época, antes de 1964, e boa parte, senão a maioria dos trabalhadores, queria tudo de “mão beijada” , ficando a vanguarda da classe ferroviária, composta por poucos companheiros, lutando pelo interesse coletivo, então usávamos o carneiro como símbolo dos pelegos da época, os trabalhadores inertes. Nesta época, tínhamos ferroviários que realmente lutavam pelos interesses da classe, mas eram poucos, se comparados com o contingente de trabalhadores da ativa, e lembro-me bem dos companheiros que atuavam de forma intransigente, na busca dos direitos da categoria: Antenor Dias, Antenor Alves, Mario Levorato, Enéas Ildefonso Martins, Jonas Paes Cavalcante, Arthur Soares, Nabor da Graça Leite, José Spétic, Milton Bataiola, Nilson Ferreira Costa, Sebastião Pereira da Silva, Mario de Oliveira, Frederico Trevisan, Wenceslau Coelho, e poucos outros; depois do golpe militar de 64, com a prisão da maior parte da vanguarda, arrefeceu o ânimo reivindicatório da classe ferroviária. Os golpistas sabiam muito bem que os ferroviários tinham suas entidades representativas bem organizadas, podendo deflagrar greves nos momentos necessários. Então, em minha opinião uma das primeiras atitudes dos usurpadores do poder central foi a de quebrar a unidade da classe trabalhadora, talvez, agindo desta forma, por ordens de fora do país, por ordens das multinacionais, e entendendo corretamente que desorganizando as entidades representativas dos trabalhadores, seria meio caminho andado para se perpetuarem no poder. Contaram para isso, com a colaboração decisiva de pelegos direitistas e alcagüetes infiltrados na categoria, dentre eles se destacando: Dr. José Simões Barroso, José Balduino Magalhães, Elmo Reginato, que representavam uma categoria privilegiada monetariamente e faziam questão de ser uma classe “badala” dos detentores do poder, pois não eram os trabalhadores sofridos e mal remunerados que “deduravam” e sim aqueles que pertenciam a “burguesia decadente”. Ademais, em nossa cidade, em um plano geral, existia a famigerada FAC, comandada pelo promotor Silvio Marques Junior, que era um órgão de repressão contra as lideranças progressistas, sendo certo que os próprios alcagüetes da Estrada de Ferro possuíam estreita ligação com este órgão repressor. Em 1964, com o golpe militar, o DOPS local em colaboração com a FAC realizaram dezenas de prisões, sendo que permaneci preso por sessenta dias. Nesta ocasião não fui torturado fisicamente, entretanto lembro-me das covardes agressões contra o estudante de Odontologia, Edson Shinohara, cometida pelos facínoras da FAC “.

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