
Enquanto o velho e conhecido ufanismo tomava conta novamente da esquerda brasileira, com Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, chegando a declarar publicamente que o Partido Comunista não era governo, mas estava no poder, de outro lado víamos a direita se organizando para combater aquilo que ela denominava de “perigo vermelho”, e a Direita Reacionária Bauruense não ficava parada, a espera de tomadas de posições a nível nacional. À Direita, inconformada com as conquistas pecuniárias da classe trabalhadora e com a classe patronal aflita, afirmando que suas margens de lucro estavam sendo irremediavelmente reduzidas, com a obrigatoriedade de se pagar o salário mínimo, o salário família e com a ameaça crescente de serem obrigados a pagar o 13º salário. A solução para continuarem a explorar indefinidamente a classe operária era um “Golpe” da direita, com a finalidade de serem revogadas as conquistas da classe trabalhadora, junto ao governo constitucional de João Goulart. Demonstravam os representantes de setores organizados da direita e do patronato bauruense, verdadeiro inconformismo, quando a imprensa nacional noticiava que o Presidente da República recebia lideranças dos trabalhadores no Palácio, para discutir democraticamente suas reivindicações. Como já vimos anteriormente, neste trabalho, a direita não se conformava com o sindicalismo em defesa da classe trabalhadora e entendia que os sindicatos e associações de classe deveriam funcionar como um apêndice de apoio das empresas, entendendo que os trabalhadores deveriam abdicar de seus direitos com a finalidade de favorecer o crescimento das empresas. Posteriormente, durante o regime militar, o ministro Antonio Delfim Netto, argumentava que a não concessão de aumento real aos salários era necessário, pois primeiro precisaríamos fazer “crescer o bolo”, para depois dividi-lo, esquecendo-se de dizer que o recheio do bolo era dividido prazerosamente entre os detentores do poder e seus apaniguados, enquanto para a classe trabalhadora restava o de nefasta memória, arrocho salarial.
Entretanto, antes do Golpe Militar, criou-se na cidade de Bauru a Frente Anti Comunista – FAC -, que tinha colaboradores e simpatizantes por todo o Estado. Estudantes, profissionais liberais e empregados de grandes empresas locais, colaboravam com o promotor público Silvio Marques Júnior, inclusive com a elaboração de listas dos “perigosos comunistas” existentes em toda a região. O acinte com que a direita se organizava para combater os comunistas era de tal monta, que o jornal “Última Hora” denunciou pouco antes do golpe militar, que a FAC possuía um campo de treinamento militar, localizado em um sítio nas imediações de nossa cidade, e esta reportagem-denúncia serviu para colocar o jornal na lista de inimigos da organização, que se aproveitando da impunidade adquirida no pós-golpe de 1º de Abril, empastelou covardemente a sucursal do jornal em nossa cidade, logo nos primeiros dias de Abril de 1964.
Enquanto a esquerda colaborava na organização de manifestações populares em apoio das medidas do Presidente João Goulart, a direita se organizava firmemente com a finalidade de derrubar o Presidente. Ao final de março de 1964, pessoas da sociedade bauruense, convocadas pelo então Prefeito Municipal Dr. Nuno de Assis, reuniram-se nas dependências da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB -, com a finalidade de organizarem em nossa cidade a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Os senhores Aniz Aidar, Paulino Rafael, Sebastião Aleixo da Silva, João Silveira (Prefeito de Agudos), Hildo Nogueira (Prefeito de Avaí), Euflávio Giraldis de Carvalho, Antonio Eufrásio de Toledo, Antonio Garcia, Giro Ishicawa, Sérvio Túlio Coube, José da Silva Martha Filho, Roberto Canedo, Nacib Salmen, Guilherme Ferraz, Oswaldo Rasi, Marco Aurélio Pinheiro Brizola, e outros, sendo certo que marcaram nova reunião para o dia 30 de Março, definindo realizar a marcha contra o perigo vermelho, em 05 de Abril de 1964. Contavam, os organizadores da Marcha, como certas as presenças dos parlamentares: Conceição da Costa Neves, Cunha Bueno e Padre Godinho. Aliás, aqui cabe um pequeno comentário: Cunha Bueno se transformou em um intransigente defensor dos militares, dentro do Congresso Nacional. Solicitado a assinar um requerimento em defesa da soberania do Congresso, por ocasião do episódio Márcio Moreira Alves, em 1968, concordou e sem ler o texto do documento, espremeu sua assinatura entre a data do requerimento e assinatura do primeiro signatário. No dia seguinte, a “Hora do Brasil” divulgava mais uma lista de parlamentares cassados pela “gloriosa” e o primeiro nome era justamente o de Cunha Bueno, que é pai do atual deputado monarquista, que utiliza o mesmo nome em suas atividades políticas. Retornando a Bauru, a única coisa que causa estranheza é que nesta reunião realizada na ACIB não esteve presente o Sr. Silvio Marques Júnior, representando a sua FAC.
Mas, o golpe veio antes da realização da Marcha e com o seu “sucesso”, à direita e também os sempre presentes oportunistas, começaram a mostrar suas “caras” e conseqüentemente suas “garras”. Horas depois da deflagração do Golpe, às 14h00, a Câmara Municipal declarou-se em vigília cívica, em solidariedade aos “chefes militares que empunharam a bandeira da liberdade em nossa Pátria”. Finalizava o manifesto da Câmara Municipal:
“Por São Paulo e pelo Brasil, a nossa manifestação de irrestrita solidariedade, melhor meio que encontramos para testemunharmos nossas identificações com as lutas pela nossa condição de povo livre”.
Os vereadores que subscreveram este documento, nem ao menos sonhavam com o período que viria a seguir, com prisões, torturas, cassações, desaparecimentos, exílios, banimentos, mortes etc..., como igualmente, não sonhavam que o golpe que ardorosamente defenderam, iria diminuir consideravelmente o poder de legislar, que até então as Câmaras possuíam. Para os oportunistas e “sanguessugas” do povo, o golpe foi ainda pior, pois uma das primeiras medidas do dito “comando revolucionário” foi a de extinguir os subsídios de vereadores, instituindo-se o mandato gratuito. Coincidência ou não, nas duas eleições realizadas posteriormente, em 68 e 72, sem que os vereadores tivessem suas atividades remuneradas, poucos candidatos se apresentaram, em ambos os partidos existentes então. Com a volta dos subsídios no ano de 1975, já nas eleições seguintes, em 1976, os dois partidos existentes apresentaram chapas completas para a vereança, reacendendo em plena vigência do regime militar, o interesse de setores da sociedade pela política, e principalmente pela vereança.
A nossa sempre atenta Câmara Municipal, logo em seguida ao golpe militar, reunia-se em 06 de Abril de 1964, fortemente coagida pela burguesia Bauruense, inclusive por madames, tidas como representativas da alta sociedade local, que se intitulavam como membros da “Associação das Donas de Casa de Bauru”, em uma atitude visivelmente estranha e golpista, pois esta entidade, logo após o golpe, havia sido dissolvida pela repressão, e estas caricatas figuras, usurpando o nome da associação, lotaram as dependências da Câmara com a finalidade de pressionarem os senhores vereadores a cassarem os mandatos de Edison Bastos Gasparini e de seu suplente, o gráfico Edson Francisco da Silva. Era o início de um regime arbitrário e ilegal, e nada melhor que uma cassação indecente, imoral, arbitraria e ilegal, para “puxar o saco” dos militares golpistas. Destaque-se que estas cassações foram pioneiras no Brasil, pois mesmo o “comando revolucionário”, iniciou as cassações em 09 de Abril de 1964, após a edição do Ato Institucional.
No período negro do pós-golpe de 1964, enquanto a sociedade burguesa e patronal, organizava-se em defesa dos militares golpistas, por outro lado à classe operária Bauruense tentou desarmada, resistir e defender o governo constitucional de João Goulart, que tantas conquistas trabalhistas estava a garantir ao povo brasileiro. Se a classe empresarial, por motivos de mesquinhez e receio das conquistas trabalhistas, movia-se pela organização da “Marcha com Deus” e no apoio aos militares golpistas, além da colaboração inconteste para o armamento e manutenção da FAC, a classe operária não via motivos para questionar a legitimidade do Governo Federal, ardilosamente deposto, afinal, Salário Família, Semana Inglesa e 13º Salário, foram algumas das conquistas trabalhistas durante o Governo Democrático de Goulart. E se, do lado operário Goulart era o sinônimo de dias melhores, para a classe empresarial, em todas as conquistas da classe trabalhadora, via motivos para conspirar, pois segundo seus representantes, estas conquistas significavam duras perdas em suas margens de lucro. Ficou célebre no meio empresarial, e dentro do conjunto dos trabalhadores, a afirmativa do fundador e presidente da TILIBRA, senhor João Batista Martins Coube, quando os funcionários de sua empresa começaram a reivindicar o pagamento do salário mínimo.
“mulher não precisa ganhar o salário mínimo, pois o que ela precisa é de dinheiro para pinturas e roupas”
Ante este princípio de vida, continuava negando-se a pagar o salário mínimo e se o cidadão negava-se sistematicamente a pagar o mínimo legal, imagine então os demais direitos.
Assim sendo, em 1º de Abril de 1964, enquanto a burguesia, o patronato local e a Câmara Municipal hipotecavam irrestrita solidariedade aos militares que comandaram o Golpe de Estado, os ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em número superior a 1.000 pessoas, tentavam organizar greve de advertência e solidariedade ao governo legal e constitucional de Goulart. Foram prontamente e duramente reprimidos por policiais da então Força Pública, comandados pelo então Tenente Ventrice, que determinou que se atirasse bombas de efeito moral sobre os ferroviários, visando dissolver sua manifestação, e tal qual na greve de Triagem, neste episódio os ferroviários jogaram as bombas de volta sobre a polícia, acabando por gerar grande tumulto. Diz a história popular que para fugir da polícia, o ferroviário Oswaldo Trevisan (já falecido), pulou o muro de uma residência, deparando-se com um cachorro de grande porte e feroz. Entre voltar e ser preso ou enfrentar o cachorro, preferiu a segunda opção, não tendo dúvidas em agarrá-lo pelo pescoço, arremessá-lo longe e continuar sua fuga. Quem conheceu Oswaldo Trevisan, o popular “Wardô”, acredita piamente nesta história.
Ali, naquela Assembléia, dirigida pelos diretores da Associação Profissional dos Ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil: Antenor Dias, Jonas Paes Cavalcante e Sebastião Pereira da Silva, visto que o então presidente Nilson Ferreira Costa encontrava-se viajando para São Paulo, em busca de notícias sobre a possibilidade de assumir o mandato efetivo de Deputado Estadual, ficou marcada a tentativa de resistência ao golpe, por parte da classe ferroviária. Resistência tênue, frágil e desarmada, sendo que ao final desta Assembléia, ocorreram as primeiras prisões, sendo o ferroviário Sebastião Pereira da Silva escoltado a pé, pelos policiais da Força Pública, até a Delegacia de Polícia local, sendo certo que permaneceu preso, até final de maio daquele ano. Muito mais sorte, teve o ferroviário Bauruense de que seu conterrâneo de Pernambuco e líder comunista Gregório Bezerra, preso e amarrado com cordas, tendo sido arrastado pelas ruas de Recife até a cadeia, de onde somente saiu em 07.09.1969, libertado em troca do embaixador americano.
Em Bauru, ao tentar reagir ao golpe, a classe ferroviária antevia o desastre que seria a Ditadura Militar para as ferrovias Brasileiras. Dentre os inúmeros erros, muitos deles intencionais que os homens da caserna cometeram, sem sombra de dúvidas, o principal deles foi o incentivo ao transporte rodoviário, em detrimento do ferroviário, erro este injustificável, principalmente não sendo o Brasil auto-suficiente em Petróleo, mostrando que na prática incentivaram o sucateamento da malha ferroviária brasileira, em decorrência do poder de mobilização que a categoria possuía.
Naquela época, a Polícia Bauruense mostrava igualmente sua face cínica, com os Delegados de Polícia Anor Scatimburgo e Amir Neves divulgando notas para a imprensa local, onde “solicitavam calma à população e confiança na ação serena e justa da polícia, que saberá respeitar a dignidade da pessoa humana” e tais notícias não eram confirmadas pelos familiares dos presos políticos Bauruenses, a grande maioria presos em virtude de denúncias formuladas pela FAC, sendo que nos primeiros dias, o “respeito à dignidade humana” não permitia inclusive a entrada de colchões nas celas da Delegacia de Polícia local, onde estavam recolhidos os presos políticos Bauruenses. Aliás, neste ponto, devemos aqui fazer um registro histórico da solidariedade bauruense, pois o então Tenente da Guarda Civil, sr. Mário Martins, vendo a situação desconfortável dos presos, angariou recursos, acabando por adquirir e levar para a Delegacia de Polícia, colchões, para que os presos políticos tivessem o mínimo de dignidade possível. Presos sim, mas com o mínimo de conforto e respeito, foi o pensamento do Tenente, hoje responsável pelo pátio de recolhimento de veículos da 5ª Ciretran.
A “ação serena e justa” da polícia local compactuava com a atuação covarde da Frente Anti Comunista, que invadia ao seu bel prazer, residências de ativistas políticos de esquerda, ou do movimento sindical, em busca de material subversivo e de armamento oriundo de “ Moscou”. Na casa do vereador Gasparini, à época residente no Edifício Abelha, na rua 1º de Agosto, a FAC compareceu armada, procurando-o. Felizmente, o mesmo havia conseguido evadir-se de nossa cidade, contando com a ajuda de vários democratas, e mesmo assim, os fascitóides reviraram todas as dependências da residência, em busca de provas concretas de seu envolvimento com o comunismo internacional, chegando a dizer a seus familiares que não queriam prendê-lo e sim matá-lo. O saldo desta ação criminosa realizada com a complacência da Polícia, foi de que a dona Darcy da Silva Gomes Gasparini, esposa do vereador, nervosa com a situação, acabou abortando. Muitos anos depois, mais precisamente no ano de 1979, na Câmara Municipal de nossa cidade, quando de um Ato Público pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, promovido pelo CBA/Bauru, o sr. Augusto César Grillo Capela, fez uma autocrítica pública daquela ação, que ele considerou como irresponsável, chegando a dizer que os componentes da FAC eram em sua grande maioria jovens inexperientes, manipulados pelo dr. Silvio Marques Júnior, este sim, querendo colocar em prática, seus imorredouros ideais nazistas.
E, muito embora, a Polícia buscasse transmitir calma a população, não era com esta calma que seus agentes vasculhavam Bauru e região em busca dos possíveis inimigos do regime militar, hoje, de triste memória para o povo brasileiro. Com calma e cautela, ia à frente de seu batalhão, o Tenente Ventrice, ávido em busca de uma promoção ou ao menos uma condecoração, e também dos líderes comunistas, Joaquim Mendonça Sobrinho e Análio Gilberto Smith, que supunha estarem escondidos na vizinha cidade de Arealva, terra natal de Joaquim e onde seu genitor residia, além de possuir ali uma propriedade rural. Comandando uma equipe da Força Pública e contando com a presença de cães adestrados, efetuou uma verdadeira caçada nos locais onde supunha estarem escondidos os dois fugitivos. Depois de “esquadrinharem” de forma infrutífera toda a região, sem lograrem êxito, contentaram-se em prender o Sr. Paulo Nicolielo, sob a acusação de ser cunhado de Joaquim e com ele estivera nos dias anteriores. Para completar o absurdo, prenderam e colocaram na cela da Delegacia daquela cidade, a Sra. Adelina Mendonça Duarte Nicolielo, esposa de Paulo e irmã de Joaquim. Assustaram-se, porém, os agentes da repressão, com a reação muda do povo daquela pequena localidade, que se concentrou defronte a Delegacia de Polícia, para saber o que estava ocorrendo com a carismática professora. Parece anedota, mas não o é. Na busca incessante de mostrar serviço e “aparecer bem” perante os olhos de seus superiores, prendia-se uma pessoa sem a acusação formal de nenhum crime, ou como no presente caso, sem nenhuma militância política e sim e tão-somente pelo fato de ser aparentado de um ativista conhecido e então procurado.
A polícia e seus braços para-militares demonstravam na época não ter o mínimo preparo intelectual e muito menos conhecimento do que era marxismo. Acreditamos que para combatermos as idéias políticas de nosso adversário ou mesmo inimigo ideológico, devemos no mínimo conhecê-las, e não era isso o que ocorria da parte dos agentes da repressão na cidade de Bauru. Em 09 de Abril, o “ Diário de Bauru” publicava uma matéria onde o Delegado de Polícia, Dr. Amir Neves Ferreira da Silva, afirmava que “ que na noite do dia anterior descansara carregando pedras, dando um giro pelas livrarias locais, apreendendo um grande número de livros de propaganda do comunismo. Vários livros de autores nacionais e estrangeiros foram levados para a Delegacia de Polícia local”. Somente não dizia, o então Delegado de Polícia, os critérios adotados para estas apreensões. Livros com a capa vermelha, editados em castelhano ou de autoria de Jorge Amado, Monteiro Lobato ou Castro Alves, eram imediatamente retirados das estantes dos comunistas ou das prateleiras das livrarias, pois eram sinônimos, na visão caolha e analfabeta dos repressores, de propaganda política marxista. Na residência da líder gráfico Edson Francisco da Silva, queriam a todo custo apreender as obras completas de Edgard Allan Poe, por estar editada em castelhano. Na residência de outro militante comunista, que conseguira esconder em local seguro a sua biblioteca, e deixara na estante tão-somente um exemplar da Bíblia Sagrada, a Polícia igualmente quis apreendê-la, pois não encontravam justificativas para a presença do livro sagrado, na casa de um comunista.
A atuação policial em nossa cidade, como na grande maioria das cidades brasileiras, nestes dias posteriores ao golpe militar, foi um verdadeiro festival de trapalhadas, que deixava atônita a população e aos militantes políticos. As pilhérias entre aqueles que se encontravam presos iam aumentando, enriquecendo, graças ao despreparo policial. Anunciavam, os repressores, que era questão de horas a prisão do perigoso “agitador de massas”, Antenor Dias e como não conseguiram êxito nas tentativas de prisão do líder ferroviário, prenderam outro em seu lugar, o também agitador de massas, mas não tão perigoso; o padeiro e comerciante Antonio Padilha. Somente não perguntaram ou investigaram qual era a massa que o Padilha agitava.
Recentemente chegado a Bauru, o psicólogo Romeu Cajueira de Freitas, de família tradicional de Alagoas, com a incumbência de trabalhar junto aos ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em virtude de ter realizado um excelente trabalho profissional junto aos trabalhadores da Central do Brasil, onde utilizando testes e orientações vocacionais e psicológicos, havia colocado cada homem, cada trabalhador no local de trabalho adequado as suas aptidões, e com isto, reduzira de forma significativa os acidentes que ocorriam com constância naquela Estrada de Ferro. Viera para Bauru, com o intuito de realizar o mesmo trabalho, junto aos ferroviários da Noroeste do Brasil, sendo certo que nas dependências do Hospital Salles Gomes, estava sendo construída a sua clínica, e com a eclosão do Golpe Militar, pessoas sem a necessária autoconfiança que viam em professor Romeu um verdadeiro inimigo, viram a chance de se livrarem do perigo. Muito bem orientados e capitaneados pelo médico pediatra, Dr. Renato Barban, engendraram uma mirabolante história, onde professor Romeu aparecia como falso psicólogo e impostor, pois na realidade era um carpinteiro e perigoso ativista comunista no nordeste brasileiro, estando em Bauru, a mando de Francisco Julião e Miguel Arraes, com a única intenção de incutir o marxismo na cabeça dos indefesos ferroviários da NOB, com a finalidade de utilizá-los como massa de manobra para a conquista de seus ideais comunistas. Duas senhoras da sociedade local, cujos nomes não declinaremos, para não expor ao público, tão desprezível ignorância, entenderam que os denunciantes tinham razão, pois haviam realizado consulta com o professor e este não receitara remédios e o mais intrigante, nem as mandara tirar as roupas. Ante tais acusações, e principalmente pela “idoneidade” dos infames acusadores, lá se foi Romeu para a cadeia, com a acusação de ser um perigoso militante comunista. Acusado de ser marxista, foi conhecer os comunistas bauruenses na prisão e ainda foi obrigado por vários dias, a conviver com a desconfiança destes, pois desconhecido dentre eles, foi considerado como um “tira” ali colocado para escutar suas conversas e transmiti-las para seus superiores. Pobre Romeu, da noite para o dia, de psicólogo transformou-se duplamente: em comunista e alcagüete, e isto, porque a polícia local agia com muita seriedade, sempre buscando separar o “ joio do trigo”.
As visitas dos familiares aos presos eram restringidas ao máximo, afinal de contas eram elementos perigosos, que tinham que ser mantidos incomunicáveis, e entretanto, para o chefe militar da FAC, as portas da cadeia eram abertas no momento em que quisesse e o promotor, eufórico, convocava seus alunos, para irem em caravana até a Cadeia Pública, onde podia mostrar seu troféu de guerra: os comunistas presos. Tal cena repetia-se diariamente e, em muitos dias, as caravanas ocorriam por diversas vezes, com o fascista demonstrando incontido orgulho em mostrar o seu “zoológico humano”. Os presos com o “saco cheio” ante a indefinição de suas situações, estando presos pela prática de crimes de opinião, sem inquérito ou processo formalizados, ameaçados a todo o momento de serem enviados para o navio prisão Raul Soares, e o pior, presos, sem o mínimo de conforto ou de dignidade, foram ficando irritados com as visitas “educacionais” do inimigo. Oswaldo Trevisan, ferroviário e jovem, resolveu dar um basta na perturbação, e certo dia, ao perceber conversas e risos na galeria da cadeia, anunciando a chegada de mais uma caravana anticomunista, despiu-se e postou-se nu na grade da cela. Ao verem aquele perigoso comunista pelado, com o pênis ereto, as jovens imediatamente chegaram a conclusão de que comunista não comia só criancinhas e entre temerosas e assustadas, saíram em desabalada carreira, nunca mais retornando, para tranqüilidade e sossego dos presos.
Com o regime militar e autoritário, instaurado em nossa pátria, as barbaridades ocorriam a cada momento, com a aquiescência policial e com isto, os candidatos a ditadores e repressores apareciam aos borbotões. O então Diretor Regional da Empresa de Correios e Telégrafos em nossa cidade, Sr. Eddie Galesso, interceptou telegramas enviados pelo sindicalista Raphael Martinelli, então presidente da Federação Nacional dos Ferroviários e membro da CGT, endereçados as lideranças da classe operária na cidade de Bauru, convocando uma greve geral em apoio ao Governo Constitucional de Jango Goulart. Um dos telegramas, enviado ao Sr. Nilson Ferreira da Costa, presidente da Associação Profissional dos Ferroviários da NOB, foi exibido na televisão local pelo Dr. Silvio Marques Junior, como prova inconteste do envolvimento das lideranças sindicais bauruenses, e em especial, Nilson Costa, com o comunismo. Diga-se que Martinelli era considerado, pelos conspiradores, como um dos principais lideres nacionais do “ comunismo internacional”, sendo que seu nome constou da primeira lista de políticos cassados, ao lado de Luis Carlos Prestes, Jânio Quadros, João Goulart, Miguel Arraes, Leonel Brizola, dentre tantos outros.Pelo crime de violação de correspondência, sendo a sua inviolabilidade prevista na Constituição Federal, e pela desonesta e imoral interceptação que ocorreu em 29.03.1964, antes da deflagração do golpe, Eddie Galesso não foi punido ou processado, e sim, juntamente com Silvio Marques Junior, homenageado com um almoço no restaurante do Bauru Tênis Clube, no dia 23.04.1964, às 12H00 horas. A Comissão Organizadora do almoço em homenagem às duas personalidades revolucionárias, um criminoso invasor de lares e provocador de abortos e o outro, um interceptador de correspondências, era formada por: Dr. José Cardoso Margarido, Dr. Luis Zuiani, Mauricio Leite de Toledo, Waldemar G. Ferreira, Manoel A. Cardoso, Nacib Salmen e Rabello Polleti. Neste almoço, de triste memória para os ideais democratas bauruenses, o Dr. José Cardoso Margarido realizou a saudação aos líderes revolucionários de nossa cidade, oferecendo o brinde principal ao ditador Humberto de Alencar Castelo Branco; O Coronel Carlos Pereira Netto saudou a gloriosa revolução de 1º de Abril e o Major Roberto Raposo dos Santos saudou a Bandeira Nacional.
Interessante se torna registrar que a imprensa local sempre se referia a Revolução vitoriosa de 1º de Abril, mudando, posteriormente sua data para 31 de março, para não coincidir seu aniversário com o dia da mentira. Os militares golpistas mudaram até a data do golpe, e, entretanto, não conseguiram tirar da história, a “pecha de revolução da mentira”, amealhada nos vintes anos em que conspurcou a democracia brasileira.
Homenageava-se publicamente, violadores de correspondência, líderes covardes de organizações para-militares e empasteladores de jornais na sede do clube da burguesia local. Ora, se tinham tanta certeza do reconhecimento popular a estes heróicos feitos, por que não realizaram estas homenagens no EC Paulista, EC Noroeste, ou então nas Vilas Dutra ou Triagem?
Porque não realizaram uma manifestação popular, com a presença da classe trabalhadora para melhor homenagear estes simulacros de seres humanos, que um dia residiram em nossa Bauru?
Enquanto a homenagem realizava-se, o folclore político-policial enriquecia, a FAC começando a suspeitar das atividades políticas do pacato estudante Irineu de Azevedo Bastos, chegando até a achar que o Irineuzinho era comunista, pois afinal comprara dias antes do golpe a lambreta vermelha do perigoso agitador José Ivan Gibin de Mattos, investigando chegaram à conclusão de que Irineu não tinha nenhuma participação com a esquerda.
Após alguns dias detidos na Delegacia de Polícia local, os presos políticos de 1964 cansaram de ouvir falar para onde seriam levados: Cadeia Pública, Quartel do 4º Batalhão Policial ou Navio Prisão Raul Soares. Finalmente, depois de vários dias de pressão psicológica, acabaram transferidos para a Cadeia Pública local, onde viam o tempo passar, sem que fossem formalizadas quaisquer acusações contra eles e muito ordem de soltura. Alguns são libertados com o decorrer dos dias, permanecendo presos os ferroviários, o policial Aguinaldo Trevisan, e os estudantes Luis Carlos Santini e Wilson Montanha. Irritavam os policiais que os vigiavam ao treinar fuzilamento no horário permitido para sol, pois já que iriam morrer, segundo seus guardiões, nada melhor que treinar para morrer com dignidade. Entre brincadeiras e estudos doutrinários, o tempo continua passando, sem que nenhum inquérito fosse instaurado pela polícia local. Presos ou reféns? Esta era a pergunta que se faziam os encarcerados bauruenses de abril de 1964.
O advogado e professor da Faculdade de Direito de Bauru, Dr. Aldo Castaldi, atende aos apelos de sua conterrânea de São Manuel, Alzira dos Santos Pedroso, e comparece à Delegacia de Polícia com a finalidade de verificar a situação processual do ferroviário Antonio Pedroso, e constata que decorrido mais de um mês de sua prisão ainda não havia sido instaurado inquérito policial e nada poderia ser feito, pois o instituto do “habeas-corpus” havia sido suspenso pelo Ato Institucional sem numeração, datado de 09.04.64. Posteriormente, os presos foram enquadrados na Lei 1802 – Lei de Segurança Nacional -, processados e acabaram por ser absolvidos por falta de provas, pelo então juiz de direito da comarca de Bauru, Dr. Antonio Macedo de Campos.
No dia seguinte a ida do Dr. Aldo Castaldi a Delegacia de Polícia, o então investigador de polícia Gerson interpelou Alzira e disse textualmente:
“De nada adianta o Dr. Aldo vir aqui, pois não vai resolver nada. Se quiser a liberdade de seu marido, contrate o Dr. Élio Vanuzzini. São CR$ 200.000,00 de honorários”.
O absurdo mais uma vez se fazia presente, com o investigador indicando o advogado e pior, arbitrando seus honorários, como se ele, investigador, fosse o dono absoluto da verdade e do preso.
Aqui fora, as aberrações continuavam a todo vapor, sendo que os dedos-duros e alcagüetes proliferavam de forma assustadora, com muitos funcionários delatando o superior hierárquico que jamais havia tido alguma participação na vida sindical ou política, entretanto o que valia naquele momento era a derrubada do chefe e “puxar o saco” dos ditos revolucionários com o intuito único de ser promovido. Uma das últimas entidades democráticas de Bauru a sofrer intervenção foi a Federação Bauruense Estudantina – FBE – aos 16 de abril de 1964, ocasião em que a diretoria então presidida por Milton Dota estava reunida na sua sede, quando chegaram os valorosos e destemidos integrantes da FAC, apresentando um documento assinado por Marco Antonio Castelo Branco, identificando-se como interventor da UPES – União Paulista dos Estudantes Secundaristas -, documento este apresentado em um papel sem timbre, mal datilografado e muito mal redigido.
Estavam presentes na sede da entidade, no Edifício Drogadada, os estudantes Milton Dota, Saad Zogheib Sobrinho, Isaías Milanese Daiben, Jefferson Barbosa da Silva, Denis Rosa, Luis Eduardo de Oliveira, Julio Tanaka e Adelsio Simões.
O pau quebrou, com discussões acaloradas e tentativas de agressão física, sendo que o então presidente teve a brilhante idéia de chamar a polícia com o intuito de solucionar a pendenga. As partes foram conduzidas ao Plantão Policial onde foi solicitado pelo Sr. Delegado um documento oficial da UPES/SP, determinando a alegada intervenção. Dota e seus companheiros ainda foram alertados por um funcionário da Delegacia de Polícia local sobre a loucura que estavam fazendo, pois se o delegado fosse outro, no caso Dr. Amir ou Dr. Anor, os estudantes integrantes da diretoria da FBE seriam presos na hora.
Ao invés de comparecerem na data aprazada pela Autoridade Policial, com a finalidade de tomarem conhecimento da intervenção oficial, os estudantes resolveram escapulir, sendo que Dota e Saad foram para a fazenda de propriedade do pai do primeiro, localizada no Clavinote, no município de Avaí. Dormiam na sede da fazenda e logo cedo se dirigiam para uma grande plantação de quiabo ali existente. Diziam para a irmã de Dota, dona Jacira:
“ Se a polícia chegar, fala que fomos embora para “quiabá””.
Na santa inocência dos então jovens estudantes, estes achavam que a polícia somente prendia de dia. Ledo engano. Após alguns dias escondidos na fazenda, retornaram para a cidade e na primeira oportunidade Saad foi preso, após ter sua casa revistada pelos agentes da repressão, assessorados pelos legionários da FAC.
Nas páginas a seguir, um pequeno relato biográfico daqueles que foram punidos, presos e perseguidos durante o regime militar em nossa cidade e região.
Entretanto, antes do Golpe Militar, criou-se na cidade de Bauru a Frente Anti Comunista – FAC -, que tinha colaboradores e simpatizantes por todo o Estado. Estudantes, profissionais liberais e empregados de grandes empresas locais, colaboravam com o promotor público Silvio Marques Júnior, inclusive com a elaboração de listas dos “perigosos comunistas” existentes em toda a região. O acinte com que a direita se organizava para combater os comunistas era de tal monta, que o jornal “Última Hora” denunciou pouco antes do golpe militar, que a FAC possuía um campo de treinamento militar, localizado em um sítio nas imediações de nossa cidade, e esta reportagem-denúncia serviu para colocar o jornal na lista de inimigos da organização, que se aproveitando da impunidade adquirida no pós-golpe de 1º de Abril, empastelou covardemente a sucursal do jornal em nossa cidade, logo nos primeiros dias de Abril de 1964.
Enquanto a esquerda colaborava na organização de manifestações populares em apoio das medidas do Presidente João Goulart, a direita se organizava firmemente com a finalidade de derrubar o Presidente. Ao final de março de 1964, pessoas da sociedade bauruense, convocadas pelo então Prefeito Municipal Dr. Nuno de Assis, reuniram-se nas dependências da Associação Comercial e Industrial de Bauru – ACIB -, com a finalidade de organizarem em nossa cidade a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Os senhores Aniz Aidar, Paulino Rafael, Sebastião Aleixo da Silva, João Silveira (Prefeito de Agudos), Hildo Nogueira (Prefeito de Avaí), Euflávio Giraldis de Carvalho, Antonio Eufrásio de Toledo, Antonio Garcia, Giro Ishicawa, Sérvio Túlio Coube, José da Silva Martha Filho, Roberto Canedo, Nacib Salmen, Guilherme Ferraz, Oswaldo Rasi, Marco Aurélio Pinheiro Brizola, e outros, sendo certo que marcaram nova reunião para o dia 30 de Março, definindo realizar a marcha contra o perigo vermelho, em 05 de Abril de 1964. Contavam, os organizadores da Marcha, como certas as presenças dos parlamentares: Conceição da Costa Neves, Cunha Bueno e Padre Godinho. Aliás, aqui cabe um pequeno comentário: Cunha Bueno se transformou em um intransigente defensor dos militares, dentro do Congresso Nacional. Solicitado a assinar um requerimento em defesa da soberania do Congresso, por ocasião do episódio Márcio Moreira Alves, em 1968, concordou e sem ler o texto do documento, espremeu sua assinatura entre a data do requerimento e assinatura do primeiro signatário. No dia seguinte, a “Hora do Brasil” divulgava mais uma lista de parlamentares cassados pela “gloriosa” e o primeiro nome era justamente o de Cunha Bueno, que é pai do atual deputado monarquista, que utiliza o mesmo nome em suas atividades políticas. Retornando a Bauru, a única coisa que causa estranheza é que nesta reunião realizada na ACIB não esteve presente o Sr. Silvio Marques Júnior, representando a sua FAC.
Mas, o golpe veio antes da realização da Marcha e com o seu “sucesso”, à direita e também os sempre presentes oportunistas, começaram a mostrar suas “caras” e conseqüentemente suas “garras”. Horas depois da deflagração do Golpe, às 14h00, a Câmara Municipal declarou-se em vigília cívica, em solidariedade aos “chefes militares que empunharam a bandeira da liberdade em nossa Pátria”. Finalizava o manifesto da Câmara Municipal:
“Por São Paulo e pelo Brasil, a nossa manifestação de irrestrita solidariedade, melhor meio que encontramos para testemunharmos nossas identificações com as lutas pela nossa condição de povo livre”.
Os vereadores que subscreveram este documento, nem ao menos sonhavam com o período que viria a seguir, com prisões, torturas, cassações, desaparecimentos, exílios, banimentos, mortes etc..., como igualmente, não sonhavam que o golpe que ardorosamente defenderam, iria diminuir consideravelmente o poder de legislar, que até então as Câmaras possuíam. Para os oportunistas e “sanguessugas” do povo, o golpe foi ainda pior, pois uma das primeiras medidas do dito “comando revolucionário” foi a de extinguir os subsídios de vereadores, instituindo-se o mandato gratuito. Coincidência ou não, nas duas eleições realizadas posteriormente, em 68 e 72, sem que os vereadores tivessem suas atividades remuneradas, poucos candidatos se apresentaram, em ambos os partidos existentes então. Com a volta dos subsídios no ano de 1975, já nas eleições seguintes, em 1976, os dois partidos existentes apresentaram chapas completas para a vereança, reacendendo em plena vigência do regime militar, o interesse de setores da sociedade pela política, e principalmente pela vereança.
A nossa sempre atenta Câmara Municipal, logo em seguida ao golpe militar, reunia-se em 06 de Abril de 1964, fortemente coagida pela burguesia Bauruense, inclusive por madames, tidas como representativas da alta sociedade local, que se intitulavam como membros da “Associação das Donas de Casa de Bauru”, em uma atitude visivelmente estranha e golpista, pois esta entidade, logo após o golpe, havia sido dissolvida pela repressão, e estas caricatas figuras, usurpando o nome da associação, lotaram as dependências da Câmara com a finalidade de pressionarem os senhores vereadores a cassarem os mandatos de Edison Bastos Gasparini e de seu suplente, o gráfico Edson Francisco da Silva. Era o início de um regime arbitrário e ilegal, e nada melhor que uma cassação indecente, imoral, arbitraria e ilegal, para “puxar o saco” dos militares golpistas. Destaque-se que estas cassações foram pioneiras no Brasil, pois mesmo o “comando revolucionário”, iniciou as cassações em 09 de Abril de 1964, após a edição do Ato Institucional.
No período negro do pós-golpe de 1964, enquanto a sociedade burguesa e patronal, organizava-se em defesa dos militares golpistas, por outro lado à classe operária Bauruense tentou desarmada, resistir e defender o governo constitucional de João Goulart, que tantas conquistas trabalhistas estava a garantir ao povo brasileiro. Se a classe empresarial, por motivos de mesquinhez e receio das conquistas trabalhistas, movia-se pela organização da “Marcha com Deus” e no apoio aos militares golpistas, além da colaboração inconteste para o armamento e manutenção da FAC, a classe operária não via motivos para questionar a legitimidade do Governo Federal, ardilosamente deposto, afinal, Salário Família, Semana Inglesa e 13º Salário, foram algumas das conquistas trabalhistas durante o Governo Democrático de Goulart. E se, do lado operário Goulart era o sinônimo de dias melhores, para a classe empresarial, em todas as conquistas da classe trabalhadora, via motivos para conspirar, pois segundo seus representantes, estas conquistas significavam duras perdas em suas margens de lucro. Ficou célebre no meio empresarial, e dentro do conjunto dos trabalhadores, a afirmativa do fundador e presidente da TILIBRA, senhor João Batista Martins Coube, quando os funcionários de sua empresa começaram a reivindicar o pagamento do salário mínimo.
“mulher não precisa ganhar o salário mínimo, pois o que ela precisa é de dinheiro para pinturas e roupas”
Ante este princípio de vida, continuava negando-se a pagar o salário mínimo e se o cidadão negava-se sistematicamente a pagar o mínimo legal, imagine então os demais direitos.
Assim sendo, em 1º de Abril de 1964, enquanto a burguesia, o patronato local e a Câmara Municipal hipotecavam irrestrita solidariedade aos militares que comandaram o Golpe de Estado, os ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em número superior a 1.000 pessoas, tentavam organizar greve de advertência e solidariedade ao governo legal e constitucional de Goulart. Foram prontamente e duramente reprimidos por policiais da então Força Pública, comandados pelo então Tenente Ventrice, que determinou que se atirasse bombas de efeito moral sobre os ferroviários, visando dissolver sua manifestação, e tal qual na greve de Triagem, neste episódio os ferroviários jogaram as bombas de volta sobre a polícia, acabando por gerar grande tumulto. Diz a história popular que para fugir da polícia, o ferroviário Oswaldo Trevisan (já falecido), pulou o muro de uma residência, deparando-se com um cachorro de grande porte e feroz. Entre voltar e ser preso ou enfrentar o cachorro, preferiu a segunda opção, não tendo dúvidas em agarrá-lo pelo pescoço, arremessá-lo longe e continuar sua fuga. Quem conheceu Oswaldo Trevisan, o popular “Wardô”, acredita piamente nesta história.
Ali, naquela Assembléia, dirigida pelos diretores da Associação Profissional dos Ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil: Antenor Dias, Jonas Paes Cavalcante e Sebastião Pereira da Silva, visto que o então presidente Nilson Ferreira Costa encontrava-se viajando para São Paulo, em busca de notícias sobre a possibilidade de assumir o mandato efetivo de Deputado Estadual, ficou marcada a tentativa de resistência ao golpe, por parte da classe ferroviária. Resistência tênue, frágil e desarmada, sendo que ao final desta Assembléia, ocorreram as primeiras prisões, sendo o ferroviário Sebastião Pereira da Silva escoltado a pé, pelos policiais da Força Pública, até a Delegacia de Polícia local, sendo certo que permaneceu preso, até final de maio daquele ano. Muito mais sorte, teve o ferroviário Bauruense de que seu conterrâneo de Pernambuco e líder comunista Gregório Bezerra, preso e amarrado com cordas, tendo sido arrastado pelas ruas de Recife até a cadeia, de onde somente saiu em 07.09.1969, libertado em troca do embaixador americano.
Em Bauru, ao tentar reagir ao golpe, a classe ferroviária antevia o desastre que seria a Ditadura Militar para as ferrovias Brasileiras. Dentre os inúmeros erros, muitos deles intencionais que os homens da caserna cometeram, sem sombra de dúvidas, o principal deles foi o incentivo ao transporte rodoviário, em detrimento do ferroviário, erro este injustificável, principalmente não sendo o Brasil auto-suficiente em Petróleo, mostrando que na prática incentivaram o sucateamento da malha ferroviária brasileira, em decorrência do poder de mobilização que a categoria possuía.
Naquela época, a Polícia Bauruense mostrava igualmente sua face cínica, com os Delegados de Polícia Anor Scatimburgo e Amir Neves divulgando notas para a imprensa local, onde “solicitavam calma à população e confiança na ação serena e justa da polícia, que saberá respeitar a dignidade da pessoa humana” e tais notícias não eram confirmadas pelos familiares dos presos políticos Bauruenses, a grande maioria presos em virtude de denúncias formuladas pela FAC, sendo que nos primeiros dias, o “respeito à dignidade humana” não permitia inclusive a entrada de colchões nas celas da Delegacia de Polícia local, onde estavam recolhidos os presos políticos Bauruenses. Aliás, neste ponto, devemos aqui fazer um registro histórico da solidariedade bauruense, pois o então Tenente da Guarda Civil, sr. Mário Martins, vendo a situação desconfortável dos presos, angariou recursos, acabando por adquirir e levar para a Delegacia de Polícia, colchões, para que os presos políticos tivessem o mínimo de dignidade possível. Presos sim, mas com o mínimo de conforto e respeito, foi o pensamento do Tenente, hoje responsável pelo pátio de recolhimento de veículos da 5ª Ciretran.
A “ação serena e justa” da polícia local compactuava com a atuação covarde da Frente Anti Comunista, que invadia ao seu bel prazer, residências de ativistas políticos de esquerda, ou do movimento sindical, em busca de material subversivo e de armamento oriundo de “ Moscou”. Na casa do vereador Gasparini, à época residente no Edifício Abelha, na rua 1º de Agosto, a FAC compareceu armada, procurando-o. Felizmente, o mesmo havia conseguido evadir-se de nossa cidade, contando com a ajuda de vários democratas, e mesmo assim, os fascitóides reviraram todas as dependências da residência, em busca de provas concretas de seu envolvimento com o comunismo internacional, chegando a dizer a seus familiares que não queriam prendê-lo e sim matá-lo. O saldo desta ação criminosa realizada com a complacência da Polícia, foi de que a dona Darcy da Silva Gomes Gasparini, esposa do vereador, nervosa com a situação, acabou abortando. Muitos anos depois, mais precisamente no ano de 1979, na Câmara Municipal de nossa cidade, quando de um Ato Público pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, promovido pelo CBA/Bauru, o sr. Augusto César Grillo Capela, fez uma autocrítica pública daquela ação, que ele considerou como irresponsável, chegando a dizer que os componentes da FAC eram em sua grande maioria jovens inexperientes, manipulados pelo dr. Silvio Marques Júnior, este sim, querendo colocar em prática, seus imorredouros ideais nazistas.
E, muito embora, a Polícia buscasse transmitir calma a população, não era com esta calma que seus agentes vasculhavam Bauru e região em busca dos possíveis inimigos do regime militar, hoje, de triste memória para o povo brasileiro. Com calma e cautela, ia à frente de seu batalhão, o Tenente Ventrice, ávido em busca de uma promoção ou ao menos uma condecoração, e também dos líderes comunistas, Joaquim Mendonça Sobrinho e Análio Gilberto Smith, que supunha estarem escondidos na vizinha cidade de Arealva, terra natal de Joaquim e onde seu genitor residia, além de possuir ali uma propriedade rural. Comandando uma equipe da Força Pública e contando com a presença de cães adestrados, efetuou uma verdadeira caçada nos locais onde supunha estarem escondidos os dois fugitivos. Depois de “esquadrinharem” de forma infrutífera toda a região, sem lograrem êxito, contentaram-se em prender o Sr. Paulo Nicolielo, sob a acusação de ser cunhado de Joaquim e com ele estivera nos dias anteriores. Para completar o absurdo, prenderam e colocaram na cela da Delegacia daquela cidade, a Sra. Adelina Mendonça Duarte Nicolielo, esposa de Paulo e irmã de Joaquim. Assustaram-se, porém, os agentes da repressão, com a reação muda do povo daquela pequena localidade, que se concentrou defronte a Delegacia de Polícia, para saber o que estava ocorrendo com a carismática professora. Parece anedota, mas não o é. Na busca incessante de mostrar serviço e “aparecer bem” perante os olhos de seus superiores, prendia-se uma pessoa sem a acusação formal de nenhum crime, ou como no presente caso, sem nenhuma militância política e sim e tão-somente pelo fato de ser aparentado de um ativista conhecido e então procurado.
A polícia e seus braços para-militares demonstravam na época não ter o mínimo preparo intelectual e muito menos conhecimento do que era marxismo. Acreditamos que para combatermos as idéias políticas de nosso adversário ou mesmo inimigo ideológico, devemos no mínimo conhecê-las, e não era isso o que ocorria da parte dos agentes da repressão na cidade de Bauru. Em 09 de Abril, o “ Diário de Bauru” publicava uma matéria onde o Delegado de Polícia, Dr. Amir Neves Ferreira da Silva, afirmava que “ que na noite do dia anterior descansara carregando pedras, dando um giro pelas livrarias locais, apreendendo um grande número de livros de propaganda do comunismo. Vários livros de autores nacionais e estrangeiros foram levados para a Delegacia de Polícia local”. Somente não dizia, o então Delegado de Polícia, os critérios adotados para estas apreensões. Livros com a capa vermelha, editados em castelhano ou de autoria de Jorge Amado, Monteiro Lobato ou Castro Alves, eram imediatamente retirados das estantes dos comunistas ou das prateleiras das livrarias, pois eram sinônimos, na visão caolha e analfabeta dos repressores, de propaganda política marxista. Na residência da líder gráfico Edson Francisco da Silva, queriam a todo custo apreender as obras completas de Edgard Allan Poe, por estar editada em castelhano. Na residência de outro militante comunista, que conseguira esconder em local seguro a sua biblioteca, e deixara na estante tão-somente um exemplar da Bíblia Sagrada, a Polícia igualmente quis apreendê-la, pois não encontravam justificativas para a presença do livro sagrado, na casa de um comunista.
A atuação policial em nossa cidade, como na grande maioria das cidades brasileiras, nestes dias posteriores ao golpe militar, foi um verdadeiro festival de trapalhadas, que deixava atônita a população e aos militantes políticos. As pilhérias entre aqueles que se encontravam presos iam aumentando, enriquecendo, graças ao despreparo policial. Anunciavam, os repressores, que era questão de horas a prisão do perigoso “agitador de massas”, Antenor Dias e como não conseguiram êxito nas tentativas de prisão do líder ferroviário, prenderam outro em seu lugar, o também agitador de massas, mas não tão perigoso; o padeiro e comerciante Antonio Padilha. Somente não perguntaram ou investigaram qual era a massa que o Padilha agitava.
Recentemente chegado a Bauru, o psicólogo Romeu Cajueira de Freitas, de família tradicional de Alagoas, com a incumbência de trabalhar junto aos ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em virtude de ter realizado um excelente trabalho profissional junto aos trabalhadores da Central do Brasil, onde utilizando testes e orientações vocacionais e psicológicos, havia colocado cada homem, cada trabalhador no local de trabalho adequado as suas aptidões, e com isto, reduzira de forma significativa os acidentes que ocorriam com constância naquela Estrada de Ferro. Viera para Bauru, com o intuito de realizar o mesmo trabalho, junto aos ferroviários da Noroeste do Brasil, sendo certo que nas dependências do Hospital Salles Gomes, estava sendo construída a sua clínica, e com a eclosão do Golpe Militar, pessoas sem a necessária autoconfiança que viam em professor Romeu um verdadeiro inimigo, viram a chance de se livrarem do perigo. Muito bem orientados e capitaneados pelo médico pediatra, Dr. Renato Barban, engendraram uma mirabolante história, onde professor Romeu aparecia como falso psicólogo e impostor, pois na realidade era um carpinteiro e perigoso ativista comunista no nordeste brasileiro, estando em Bauru, a mando de Francisco Julião e Miguel Arraes, com a única intenção de incutir o marxismo na cabeça dos indefesos ferroviários da NOB, com a finalidade de utilizá-los como massa de manobra para a conquista de seus ideais comunistas. Duas senhoras da sociedade local, cujos nomes não declinaremos, para não expor ao público, tão desprezível ignorância, entenderam que os denunciantes tinham razão, pois haviam realizado consulta com o professor e este não receitara remédios e o mais intrigante, nem as mandara tirar as roupas. Ante tais acusações, e principalmente pela “idoneidade” dos infames acusadores, lá se foi Romeu para a cadeia, com a acusação de ser um perigoso militante comunista. Acusado de ser marxista, foi conhecer os comunistas bauruenses na prisão e ainda foi obrigado por vários dias, a conviver com a desconfiança destes, pois desconhecido dentre eles, foi considerado como um “tira” ali colocado para escutar suas conversas e transmiti-las para seus superiores. Pobre Romeu, da noite para o dia, de psicólogo transformou-se duplamente: em comunista e alcagüete, e isto, porque a polícia local agia com muita seriedade, sempre buscando separar o “ joio do trigo”.
As visitas dos familiares aos presos eram restringidas ao máximo, afinal de contas eram elementos perigosos, que tinham que ser mantidos incomunicáveis, e entretanto, para o chefe militar da FAC, as portas da cadeia eram abertas no momento em que quisesse e o promotor, eufórico, convocava seus alunos, para irem em caravana até a Cadeia Pública, onde podia mostrar seu troféu de guerra: os comunistas presos. Tal cena repetia-se diariamente e, em muitos dias, as caravanas ocorriam por diversas vezes, com o fascista demonstrando incontido orgulho em mostrar o seu “zoológico humano”. Os presos com o “saco cheio” ante a indefinição de suas situações, estando presos pela prática de crimes de opinião, sem inquérito ou processo formalizados, ameaçados a todo o momento de serem enviados para o navio prisão Raul Soares, e o pior, presos, sem o mínimo de conforto ou de dignidade, foram ficando irritados com as visitas “educacionais” do inimigo. Oswaldo Trevisan, ferroviário e jovem, resolveu dar um basta na perturbação, e certo dia, ao perceber conversas e risos na galeria da cadeia, anunciando a chegada de mais uma caravana anticomunista, despiu-se e postou-se nu na grade da cela. Ao verem aquele perigoso comunista pelado, com o pênis ereto, as jovens imediatamente chegaram a conclusão de que comunista não comia só criancinhas e entre temerosas e assustadas, saíram em desabalada carreira, nunca mais retornando, para tranqüilidade e sossego dos presos.
Com o regime militar e autoritário, instaurado em nossa pátria, as barbaridades ocorriam a cada momento, com a aquiescência policial e com isto, os candidatos a ditadores e repressores apareciam aos borbotões. O então Diretor Regional da Empresa de Correios e Telégrafos em nossa cidade, Sr. Eddie Galesso, interceptou telegramas enviados pelo sindicalista Raphael Martinelli, então presidente da Federação Nacional dos Ferroviários e membro da CGT, endereçados as lideranças da classe operária na cidade de Bauru, convocando uma greve geral em apoio ao Governo Constitucional de Jango Goulart. Um dos telegramas, enviado ao Sr. Nilson Ferreira da Costa, presidente da Associação Profissional dos Ferroviários da NOB, foi exibido na televisão local pelo Dr. Silvio Marques Junior, como prova inconteste do envolvimento das lideranças sindicais bauruenses, e em especial, Nilson Costa, com o comunismo. Diga-se que Martinelli era considerado, pelos conspiradores, como um dos principais lideres nacionais do “ comunismo internacional”, sendo que seu nome constou da primeira lista de políticos cassados, ao lado de Luis Carlos Prestes, Jânio Quadros, João Goulart, Miguel Arraes, Leonel Brizola, dentre tantos outros.Pelo crime de violação de correspondência, sendo a sua inviolabilidade prevista na Constituição Federal, e pela desonesta e imoral interceptação que ocorreu em 29.03.1964, antes da deflagração do golpe, Eddie Galesso não foi punido ou processado, e sim, juntamente com Silvio Marques Junior, homenageado com um almoço no restaurante do Bauru Tênis Clube, no dia 23.04.1964, às 12H00 horas. A Comissão Organizadora do almoço em homenagem às duas personalidades revolucionárias, um criminoso invasor de lares e provocador de abortos e o outro, um interceptador de correspondências, era formada por: Dr. José Cardoso Margarido, Dr. Luis Zuiani, Mauricio Leite de Toledo, Waldemar G. Ferreira, Manoel A. Cardoso, Nacib Salmen e Rabello Polleti. Neste almoço, de triste memória para os ideais democratas bauruenses, o Dr. José Cardoso Margarido realizou a saudação aos líderes revolucionários de nossa cidade, oferecendo o brinde principal ao ditador Humberto de Alencar Castelo Branco; O Coronel Carlos Pereira Netto saudou a gloriosa revolução de 1º de Abril e o Major Roberto Raposo dos Santos saudou a Bandeira Nacional.
Interessante se torna registrar que a imprensa local sempre se referia a Revolução vitoriosa de 1º de Abril, mudando, posteriormente sua data para 31 de março, para não coincidir seu aniversário com o dia da mentira. Os militares golpistas mudaram até a data do golpe, e, entretanto, não conseguiram tirar da história, a “pecha de revolução da mentira”, amealhada nos vintes anos em que conspurcou a democracia brasileira.
Homenageava-se publicamente, violadores de correspondência, líderes covardes de organizações para-militares e empasteladores de jornais na sede do clube da burguesia local. Ora, se tinham tanta certeza do reconhecimento popular a estes heróicos feitos, por que não realizaram estas homenagens no EC Paulista, EC Noroeste, ou então nas Vilas Dutra ou Triagem?
Porque não realizaram uma manifestação popular, com a presença da classe trabalhadora para melhor homenagear estes simulacros de seres humanos, que um dia residiram em nossa Bauru?
Enquanto a homenagem realizava-se, o folclore político-policial enriquecia, a FAC começando a suspeitar das atividades políticas do pacato estudante Irineu de Azevedo Bastos, chegando até a achar que o Irineuzinho era comunista, pois afinal comprara dias antes do golpe a lambreta vermelha do perigoso agitador José Ivan Gibin de Mattos, investigando chegaram à conclusão de que Irineu não tinha nenhuma participação com a esquerda.
Após alguns dias detidos na Delegacia de Polícia local, os presos políticos de 1964 cansaram de ouvir falar para onde seriam levados: Cadeia Pública, Quartel do 4º Batalhão Policial ou Navio Prisão Raul Soares. Finalmente, depois de vários dias de pressão psicológica, acabaram transferidos para a Cadeia Pública local, onde viam o tempo passar, sem que fossem formalizadas quaisquer acusações contra eles e muito ordem de soltura. Alguns são libertados com o decorrer dos dias, permanecendo presos os ferroviários, o policial Aguinaldo Trevisan, e os estudantes Luis Carlos Santini e Wilson Montanha. Irritavam os policiais que os vigiavam ao treinar fuzilamento no horário permitido para sol, pois já que iriam morrer, segundo seus guardiões, nada melhor que treinar para morrer com dignidade. Entre brincadeiras e estudos doutrinários, o tempo continua passando, sem que nenhum inquérito fosse instaurado pela polícia local. Presos ou reféns? Esta era a pergunta que se faziam os encarcerados bauruenses de abril de 1964.
O advogado e professor da Faculdade de Direito de Bauru, Dr. Aldo Castaldi, atende aos apelos de sua conterrânea de São Manuel, Alzira dos Santos Pedroso, e comparece à Delegacia de Polícia com a finalidade de verificar a situação processual do ferroviário Antonio Pedroso, e constata que decorrido mais de um mês de sua prisão ainda não havia sido instaurado inquérito policial e nada poderia ser feito, pois o instituto do “habeas-corpus” havia sido suspenso pelo Ato Institucional sem numeração, datado de 09.04.64. Posteriormente, os presos foram enquadrados na Lei 1802 – Lei de Segurança Nacional -, processados e acabaram por ser absolvidos por falta de provas, pelo então juiz de direito da comarca de Bauru, Dr. Antonio Macedo de Campos.
No dia seguinte a ida do Dr. Aldo Castaldi a Delegacia de Polícia, o então investigador de polícia Gerson interpelou Alzira e disse textualmente:
“De nada adianta o Dr. Aldo vir aqui, pois não vai resolver nada. Se quiser a liberdade de seu marido, contrate o Dr. Élio Vanuzzini. São CR$ 200.000,00 de honorários”.
O absurdo mais uma vez se fazia presente, com o investigador indicando o advogado e pior, arbitrando seus honorários, como se ele, investigador, fosse o dono absoluto da verdade e do preso.
Aqui fora, as aberrações continuavam a todo vapor, sendo que os dedos-duros e alcagüetes proliferavam de forma assustadora, com muitos funcionários delatando o superior hierárquico que jamais havia tido alguma participação na vida sindical ou política, entretanto o que valia naquele momento era a derrubada do chefe e “puxar o saco” dos ditos revolucionários com o intuito único de ser promovido. Uma das últimas entidades democráticas de Bauru a sofrer intervenção foi a Federação Bauruense Estudantina – FBE – aos 16 de abril de 1964, ocasião em que a diretoria então presidida por Milton Dota estava reunida na sua sede, quando chegaram os valorosos e destemidos integrantes da FAC, apresentando um documento assinado por Marco Antonio Castelo Branco, identificando-se como interventor da UPES – União Paulista dos Estudantes Secundaristas -, documento este apresentado em um papel sem timbre, mal datilografado e muito mal redigido.
Estavam presentes na sede da entidade, no Edifício Drogadada, os estudantes Milton Dota, Saad Zogheib Sobrinho, Isaías Milanese Daiben, Jefferson Barbosa da Silva, Denis Rosa, Luis Eduardo de Oliveira, Julio Tanaka e Adelsio Simões.
O pau quebrou, com discussões acaloradas e tentativas de agressão física, sendo que o então presidente teve a brilhante idéia de chamar a polícia com o intuito de solucionar a pendenga. As partes foram conduzidas ao Plantão Policial onde foi solicitado pelo Sr. Delegado um documento oficial da UPES/SP, determinando a alegada intervenção. Dota e seus companheiros ainda foram alertados por um funcionário da Delegacia de Polícia local sobre a loucura que estavam fazendo, pois se o delegado fosse outro, no caso Dr. Amir ou Dr. Anor, os estudantes integrantes da diretoria da FBE seriam presos na hora.
Ao invés de comparecerem na data aprazada pela Autoridade Policial, com a finalidade de tomarem conhecimento da intervenção oficial, os estudantes resolveram escapulir, sendo que Dota e Saad foram para a fazenda de propriedade do pai do primeiro, localizada no Clavinote, no município de Avaí. Dormiam na sede da fazenda e logo cedo se dirigiam para uma grande plantação de quiabo ali existente. Diziam para a irmã de Dota, dona Jacira:
“ Se a polícia chegar, fala que fomos embora para “quiabá””.
Na santa inocência dos então jovens estudantes, estes achavam que a polícia somente prendia de dia. Ledo engano. Após alguns dias escondidos na fazenda, retornaram para a cidade e na primeira oportunidade Saad foi preso, após ter sua casa revistada pelos agentes da repressão, assessorados pelos legionários da FAC.
Nas páginas a seguir, um pequeno relato biográfico daqueles que foram punidos, presos e perseguidos durante o regime militar em nossa cidade e região.
mEU COMENTÁRIO É BEM DOLOROSO. PRIMEIRO PQ MEU PAI ESTAVA ENTRE ESSES SUBVERSIVOS E O NOME DELE NÃO CONSTA DA LISTA. SEGUNDO PORQUE SOFREMOS MUITO DURANTE AQUELES AMARGOS DIAS DE ABRIL DE 1964.MEU PAI FOI PRESO POR 40 DIAS E NUNCAA MAIS TEVE TRANQUILIDADE E NEM NÓS. OS MILITARES CHEGAVAM NA NOSSA CASA, INVADIAM OS QUARTOS, REVIRAVAM TUDO E O LEVAVAM NAQUELE CABURÃO HORROROSO, COMO SE ELE FOSSE UM LADRÃO OU ASSASSINO E NÓS SOFRÍAMOS JUNTOS.ELE MORREU EM 1971 DE DESGOSTO E TRISTEZA.ERA UM HOMEM SÉRIO, TRABALHADOR, APENAS TINHA SEUS IDEAIS QUE CERTO OU ERRADO, ERA UM DIREITO DELE.ELE ERA FERROVIARIO DA NOROESTE AMIGO DAQUELES LISTADOS NESSA REPORTAGEM, PRINCIPALMENTE ANTENOR DIAS E JONAS.SEU NOME:JULIO SOARES XAVIER E QUERIA VER TODOS OS BRASILEIROS TENDO CASA E COMIDA, PQ ELE VIA NA ESTÃO DA NOB AQUELE POVO JOGADO CHÃO COM CRIANÇAS, DIAS A FIO E NA CABEÇA DELE O COMUNISMO ERA A SOLUÇÃO.
ResponderExcluirMEU pai era Edson R.Machado e ear ardiotelegrafista nessa época , busco registros dele mas n encontro..Era ele O Djalma , O Xandoca.......Sponton.
ResponderExcluire as reformas de base???e a revolta dos marinheiros????
ResponderExcluirAinda criança, eu conhecí pessoalmente o Eddie Galesso/DCT, que foi substituido como Diretor do DCT/Bauru - pouquíssimo tempo depois da Revolução - pelo Cel. Alfredo Reginaldo Sobrinho; após IPM, Galesso foi exonerado à bem do serviço público pela chamada "química": utilizava verbas do orçamento destinadas à festas, presentes e eventos e com elas comprava MÁQUINAS DE ESCREVER, CÁLCULAR, PAPEL E IMPRESSOS, CARBONO, GASOLINA E CONSERTO PARA AS VIATURAS do Correio; esse foi seu crime principal. A violação dos telegramas foi crime, é claro, e ele TAMBÉM respondeu por ele, não ficou impune. Quanto ao Maurício Leite de Toledo, triste ironia: anos depois, um outro Toledo, militante de esquerda, foi JUSTIÇADO por seus próprios colegas revolucionários por discordar politicamente de algumas ações. Aliás, o termo é eufemismo, Toledinho foi ASSASSINADO. De qualquer maneira, achei esse blog muito interessante, até por trazer histórias da minha terra, aluno do primário no velho Rodrigues de Abreu, da Dona Débora, do Ernesto Monte, mas acho que os dois lados, pelo menos o que sabemos com certeza, tem que ser mostrado sem medo, sem viés político. Saudações. Fernando/59 f.marchini@uol.com.br
ResponderExcluirhttp://f.marchini.blog.uol.com.br/
Volto a falar de meu pai, Júlio Soares Xavier, ratificando tudo o que falei no comentário anterior. Se for procurada a antiga Associação dos Funcionários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, será encontrada a história dele p ele fez parte da diretoria por muito tempo. Até nos arquivos da antiga Noroeste, pq ele trabalhou nessa estrada e depois Rede ferroviária Federal, até se aposentar.
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