segunda-feira, 27 de abril de 2009

JOFRE CORREA NETTO


"Do mesmo modo que a união faz a força, a discórdia leva a uma rápida derrota".
Esopo.

Nascido aos 03/04/1921, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, filho de Pedro Correa Netto e de dona Joana Correa Netto, muito embora declarasse que havia nascido em 1917, o mesmo ano da Revolução Russa, tendo falecido aos 12 de junho de 2002, em Brasília, aos oitenta e quatro anos de idade. Surgiu na luta do campesinato brasileiro no ano de 1959, com a imprensa o apelidando de “Fidel Castro do Sertão”, quando o mesmo atraiu a atenção da mídia como sendo o principal defensor de um grupo de mais de 800 famílias de camponeses ameaçados de expulsão por um grande e poderoso latifundiário de Santa Fé do Sul, na região noroeste do Estado de São Paulo. O conflito era intenso, pois se encontravam no local mais de 5.000 pessoas e muitas delas em situação de penúria, tendo que se alimentar de raízes, insetos e até de carne de cobras e macacos, que conseguiam capturar ocasionalmente.
Os camponeses haviam sido contratados por dois empreiteiros do latifundiário José de Carvalho Diniz, popularmente conhecido como “Zico Diniz”, com a promessa de poderem ficar cinco anos nas terras. Tinham que inicialmente desbravar a mata, e em troca, poderem plantar durante cinco anos, vivendo da lavoura e garantindo a sobrevivência com a comercialização dos produtos colhidos em suas lavouras. Após cinco anos entregariam a terra ao fazendeiro com as pastagens formadas em capim colonião. Estes camponeses aceitaram o desafio, cheios de esperanças em um futuro melhor, entretanto, uma seca prejudicou a primeira safra e “Zico Diniz” de imediato exigiu a entrega da terra. Como houve a recusa dos trabalhadores, o fazendeiro determinou que o capim fosse plantado imediatamente nas lavouras dos camponeses, que seus ranchos fossem queimados e que o gado de sua propriedade fossem soltos para destruir o que restava de suas lavouras e que lhes serviam de alimento.
Foi exatamente no auge do descontentamento contra o fazendeiro e suas atitudes, que surgiu a figura de Jofre com a finalidade de organizar a luta dos camponeses e iniciou comandando os camponeses em uma arrojada operação “arranca capim”, retirando de suas lavouras o capim plantado pelo fazendeiro. Diniz solicitou ajuda ao Estado e conseguiu uma decisão judicial contra a ação dos camponeses, e ainda, a presença da polícia militar na região, com a finalidade de garantir a sua propriedade.
Jofre, porém, levou a luta igualmente para a justiça e para a cidade. Mostrava ser um grande agitador das massas oprimidas, quando incentivou:

“Meu povo! Vamos agora tratar com carinho este capim, para depois mandarmos para São Paulo, para o governador e o Zico Diniz comerem!”.

Esta declaração foi publicada no jornal “O Estado de São Paulo” e como o movimento havia ganhado a orientação do PCB, que além de investir, se empenhava muito nos movimentos sociais da época, acabou por atrair a atenção da mídia, transformando Jofre em um verdadeiro herói para os camponeses da época, disseminando entre estes os ideais da resistência. Juntamente com outros camponeses, dentre os quais se destacava José Correia de Lira e Olímpio Pereira Machado, acabaram por fundar a “Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas”, a semente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais que acabou sendo fundado em 1963 e existente até os dias atuais. As manchetes da Imprensa destacavam que Jofre comandava a região e com os planos frustrados, Diniz e seus empreiteiros resolveram mandar matar Jofre.
O atentado contra a vida do líder camponês ocorreu em 06 de Agosto de 1959, todavia, como a pretensa periculosidade de Jofre era bastante divulgada e o escolhido para matá-lo tinha muito medo dele que, segundo os comentários, acabou por beber muito conhaque antes de praticar o crime, ou melhor, dizendo, antes de disparar os tiros. E quando atirou, acabou por atingir Jofre, em duas partes do corpo, inclusive no rosto, e não conseguiu concretizar o objetivo, que era matá-lo. Ferido, foi transportado de avião para o Hospital das Clínicas, na cidade de São Paulo, onde se recuperou.
Além de não conseguir eliminar o líder, o frustrado atentado, serviu para solidificar ainda mais a fama e liderança de Jofre, além de denunciar rapidamente e de forma ampla a situação precária em que se encontravam os camponeses de Santa Fé. Cresciam por todo o país, os protestos de sindicalistas e políticos contra a situação reinante em Santa Fé do Sul, e o então governador Carvalho Pinto, acabou por nomear o biólogo e sambista Paulo Vanzolini, como interventor estadual, para a tentativa de solucionar a pendência.
Vanzolini acabou por subornar alguns camponeses e determinou que uma equipe de advogados negociasse contratos de arrendamento, e acabou por convencer muitas famílias a o assinarem, prorrogando por mais um ou dois anos a permanência na terra. Para muitos analistas, a assinatura do contrato significou paralelamente o fim do sonho em se tornar o dono da terra.
Depois de recuperado, recebeu treinamento por parte do PCB e acabou se transformando em militante comunista, e correu toda a região do centro-sul , participando ativamente da formação de muitas associações e sindicatos de trabalhadores rurais e camponeses.
Em maio de 1960, retorna a Santa Fé , iniciando o preparo de outro movimento de resistência, e desta feita, foi o próprio Estado que se preocupou com sua atuação e logo no início de junho, o Delegado de Polícia do município o indiciou em inquérito, juntamente com mais três lideranças comunistas, na Lei de Segurança Nacional, acabando por os prender. Alegava que outra “ guerra do capim” poderia vir a ameaçar o bem estar da nação. Uma bem sucedida campanha na mídia, comandada pelo PCB, acabou por colocar Jofre e seus companheiros em liberdade no início de 1961. Com as campanhas enaltecendo suas lutas e clamando por sua liberdade, acabou por se transformar em um símbolo importante da luta pela reforma agrária radical no Brasil. Orientado pelo PCB, acabou por ser elevado como líder camponês e por muitos era considerado mais autêntico de que Francisco Julião, o advogado, político e filho de senhor de engenho, que fundou as Ligas Camponesas.
Jofre corria o país ministrando palestras para trabalhadores, sempre afirmando que “devíamos imitar Cuba, que apesar de pequena, demonstrava ser forte, derrotando os trustes norte-americanos”, e popularizando a palavra de ordem comunista: “a terra é de quem nela trabalha”.
Em agosto de 1961, quando se encontrava em Belo Horizonte trabalhando na organização do Congresso Nacional dos Trabalhadores Agrícolas pela Reforma Agrária, foi novamente preso, em virtude de seu indiciamento na Lei de Segurança Nacional na comarca de Jales, tendo sido recambiado para São Paulo, algemado e sob a escolta de agentes do DOPS. Ao dar entrada, perto da meia noite do dia 24 de Agosto, no Plantão do Departamento de Investigações do DOPS, concedeu a seguinte entrevista ao jornal “Ultima Hora”:

“Estou preso, mas não faz mal. Continuarei lutando. Sei que o movimento em Santa Fé do Sul e Jales não parou. O próprio Presidente da República já tomou conhecimento do assunto e seu gabinete em São Paulo para lá enviou uma comissão, que apurou a procedência de todas as minhas denúncias. Há questão de três anos, aqueles lavradores tinham arrendado terras do latifundiário José Fernando Diniz. Dois anos depois, quando tínhamos preparado o solo, plantado e cultivado vários produtos, o fazendeiro se apoderou de tudo. Por esta razão, tomei a iniciativa de formar uma agremiação que lutasse em defesa de nossos direitos. De então para cá, tenho sido perseguido e cassado em toda a parte, servindo-se a polícia dos mais absurdos ardis para liquidar-me”.

Esta prisão ocorreu em virtude de um mandato, expedido pela Justiça de Jales no ano de 1959 e que já havia sido cumprido, gerando imediatos protestos da Juventude Trabalhista, do Partido Socialista Brasileiro e da Comissão Organizadora do Congresso. Libertado Jofre retornou para Belo Horizonte, onde em Novembro foi realizado o Congresso, tendo dele participado do Congresso, ao lado do criador das Ligas Camponesas, Francisco Julião e assistido ao lado da então 1ª dama brasileira, Sra. Maria Thereza Goulart a encenação de uma peça teatral, montada com inspiração no conflito ocorrido em Santa Fé. Aliás, apesar da repressão e da ausência de Jofre, o exemplo dele era muito forte na região de Santa Fé, sendo certo que outras lideranças de camponeses se formaram para novamente arrancar capim, nos anos de 1960, 1961 e 1962.
No primeiro semestre de 1962, esteve em Presidente Prudente, ocasião em que fundou a “União dos Trabalhadores Agrícolas de Presidente Prudente”, sendo eleito o seu primeiro presidente. Esta entidade rendeu-lhe novo indiciamento com fundamento na Lei de Segurança Nacional, e posteriormente, depois do Golpe Militar esse processo foi encaminhado para a 1ª Auditoria Militar de São Paulo, onde acabou condenado em 11 de julho de 1967, a quatro anos de prisão. A acusação principal era de que fazia apologia da Reforma Agrária, e nos autos processuais foram destacadas duas frases encontradas em suas anotações, que serviram de embasamento para a peça acusatória:

“O proletariado revolucionário deve proceder ao confisco imediato e absoluto de todas as terras dos grandes proprietários latifundiários”.

“Nas fileiras dos Partidos Comunistas não se deve admitir de modo algum, a propaganda ou a aplicação de uma medida de indenização aos grandes proprietários pelas terras expropriadas”.

Assinava a denúncia o Promotor Público, senhor José Carlos Vieira de Camargo, que arrolou como testemunhas de acusação os senhores: Francisco Calazans Pinheiro, Ademir Alves Cardoso, Warner Andrade de Vechi, José Salas Molina, Tuneo Kato, João Pedro Gomes, Geraldo Marques Fernandes.
Em 1963, foi para Presidente Alves, região de Bauru, no interior de São Paulo, com a finalidade de organizar os trabalhadores rurais daquela região, na luta contra o então denominado mau-patrão JJ Abdalla, que possuía propriedades rurais na região, dentre elas a Usina Miranda, que tinha autonomia administrativa própria, chegando a ter inclusive a sua própria moeda, então denominada de “cascudo”. Os visitantes ao chegarem a Usina, tinham que trocar os cruzeiros que traziam pelos ditos “cascudos”, pois dentro daquela propriedade esta era a moeda que valia. Atrasos de pagamentos ocorriam com constância e não raras vezes o trabalhador ficava, cinco ou seis meses sem receber salário e os trabalhadores eram obrigados a comprarem seus suprimentos nos armazéns da Usina, a preço diversas vezes superiores ao do praticado nas cidades vizinhas. Entretanto, o alvo de Jofre não era a Usina e sim a Fazenda Jacutinga, de propriedade dos mesmos donos. Ao lado dos dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Presidente Alves e com o apoio logístico de militantes do Partido Comunista Brasileiro da cidade de Bauru e região, organizou a invasão da Fazenda Jacutinga de propriedade do reconhecidamente mau patrão JJ Abdalla. Os relatórios que os agentes policiais de Bauru e Presidente Alves prepararam contra Jofre e seus companheiros de empreitada são dignos de filme de humor.
Mal sabiam que estavam falando de uma das principais lideranças camponesas de nosso país, que tinha vindo para nossa região com a finalidade de deflagrar a luta pela reforma agrária no interior paulista, sendo um cidadão altamente preparado intelectualmente e em condições de arregimentar a massa famélica em busca de um pedaço de terra para produzir alimentos.
Contou nesta empreitada no município de P. Alves com a colaboração decisiva dos dirigentes sindicais Francisco Caetano e Sebastião dos Reis. De Bauru, foi destacado o então jovem estudante e militante comunista José Ivan Gibin de Mattos com a finalidade principal de oferecer segurança ao líder camponês, além dos militantes comunistas da cidade, tendo a frente o vereador Edison Bastos Gasparini ficarem como responsáveis pelo trabalho de retaguarda e de divulgação da invasão. Aliás, a esposa de Jofre então grávida ficou hospedada na casa do vereador e o Comitê Municipal do Partido responsável por sua manutenção enquanto perdurasse a pendência na Fazenda Jacutinga. De sobreaviso para qualquer eventualidade os advogados ligados ao Partido, dentre eles Joaquim Mendonça Sobrinho e Análio Gilberto Smith.
Invadida a Fazenda, providenciaram o isolamento da mesma para evitar serem surpreendidos pelas forças policiais, cortando os fios telefônicos e cavando barreiras em formas de trincheiras. Estes fatos, aliados ao hasteamento da Bandeira Nacional na propriedade, provocaram verdadeira ira nos agentes policiais da Delegacia de Ordem Política e Social, que destilavam ódio em seus relatórios ao invés de se limitarem aos acontecimentos. Isto no ano de 1962, antes do Golpe Militar de 1964. As cargas feitas pelas Autoridades Policiais surtiram efeito, pois o Sr. Luis Francisco Giglio, então Juiz de Direito de Pirajuí, acabou por condenar JOFRE e IVAN com fundamento na Lei de Segurança Nacional. Ivan logrou fuga e Jofre transformou-se no único preso político daquele período da história brasileira, sendo que o Partido Comunista Brasileiro novamente realizou Campanha Nacional com o objetivo de conseguir sua liberdade, sendo certo que buscou igualmente semear por estas paragens a luta pela terra e a conscientização da classe trabalhadora. Ficou preso na Cadeia Pública de Reginopólis, e sua esposa, Jandira veio a ter a menina Olga Benário, na residência do vereador Gasparini, sendo assistida durante o tempo da prisão do marido, pelo vereador e esposa Darcy, com acompanhamento médico do Dr. Ansberto Rodrigues Passos.
Perseguido implacavelmente pela polícia política em seu triste papel de defensora dos oprimidos, esteve preso por curto período no pós-golpe militar. Adentrou as celas do DOPS/SP em 16/05/1964, tendo sido libertado em 21 do mesmo mês.
Entretanto, em 11/07/1967, o juiz auditor da 1ª Auditoria Militar de São Paulo, senhor RAPHAEL CARNEIRO MAIA, condenou-o com fundamento na lei 1802 (Lei de Segurança Nacional) a quatro anos de reclusão. Jofre evadiu-se, acabando por ser preso somente em 06/02/1973, na cidade de Jundiaí e acusado de pertencer a uma organização armada em luta contra o regime militar e o próprio Jofre acabou por denunciar as torturas que sofreu, tendo sido novamente recolhido a carceragem do DOPS/SP, onde ficou em companhia de Ivan de Seixas, Maria Amélia de Almeida Telles, José Genoíno Neto, César Augusto Telles, dentre outros.
Por onde passou Jofre semeou a esperança e a vontade de lutar da classe trabalhadora e em 1969, os sobreviventes da época de Jofre em Santa Fé, voltaram a arrancar capim como forma que encontraram para protestar contra a expulsão da terra, em virtude da enchente da barragem e até os anos 80, quando a Comissão Pastoral da Terra ainda organizou a luta pela terra em São Paulo, a arrancada do capim permaneceu como maneira de assegurar a posse da terra.
Enquanto a mídia o apelidava de Fidel Castro do Sertão, para os trabalhadores rurais e camponeses ele nunca deixou de ser o Capitão Jofre, pois aplicando as técnicas militares e de liderança, que havia aprendido no seu serviço militar, durante a Segunda Guerra Mundial, Jofre se destacou como um dirigente de classe. Durante sua permanência no Exército, realizou um curso de Sargento e entretanto encerrou sua permanência no Exército como cabo. Mesmo assim, o apelido de Capitão, permaneceu até a morte. Jofre sempre chamou a atenção daqueles que com ele tiveram a oportunidade de conviver, pois criava e cultivava com facilidade amizade. Sempre chamou atenção, impôs respeito e mereceu a palavra. Era de fato um líder, líder forjado nas lutas contra a tirania e a opressão. Voltou a atuar como militante do PCB nos anos 80 e participou ativamente das filmagens do documentário “Guerra do Capim”, do professor americano Bill Clyff sendo que, pela primeira vez, em Abril de 2001, viajou para o exterior, indo aos Estados Unidos assistir ao lançamento do filme.
JOFRE CORREA NETTO, indiscutivelmente foi uma das figuras de destaque da vanguarda dos marxistas na defesa dos direitos trabalhistas dos camponeses e da luta pela conquista da terra. Indiscutivelmente, um dos heróis anônimos da classe trabalhadora brasileira.

7 comentários:

  1. Ele era meu tio. Pena que o encontramos muito tarde...não tivemos tempo de conversar melhor. Mas até o final da vida ele foi fiel aos seus princípios.

    Edna Lautert - Santo Ângelo - RS

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    1. Cara Edna, desculpe a demora em responder. Gostaria de conversar com vc. chineloneles@uol.com.br

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  2. Convivi durante algum tempo com Jofre Correia Neto e sua esposa Jandira. Eu trabalhava no jornal "Terra Livre" do pcb e fazia todas as reportagens sobre Jofre, no periodo de 61 a 64. Quando esteve preso em Reginopolis, ua campanha de libertaçaõ foi feita toda em meu nome. Estive com Jandira, gravida, em 30 de março/64 em Bauru na casa de Edson Gasparine e depois fui reencotra -los morando na Penha, na rua Cel Meireles. Depois nunca mais os vi. Gostaria muito de ter noticias deles.
    Carlos R. Lucas

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    1. Caro Carlos, desculpe a demora em te responder. Gostaria muito de conversar com vc. chineloneles@uol.com.br

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    2. Sou neta do Jofre,infelizmente não o conheci,mas eu admiro a sua história!

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  3. Parte da historia de Jofre está em "Memorias de um Comunista" - autobiografia de Carlos R. Lucas. Entre no Google e digite Carlos R. Lucas

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  4. Jandira gravida da Olga ou do Flávio?
    sou Filha da Jandira

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