"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence".
(Bertolt Brecht)
Nascido aos 31.10.1940 em Avaí – Sp. , no local denominado “Mata Sede”, filho de José Victorino Dota e de dona Ana Pietroforte Dota, mudando-se para Bauru na adolescência com a finalidade principal de concluir os estudos. Em Avaí, acompanhava o pai, que era freqüentador costumaz dos comícios políticos e janista convicto. O velho Vitorino, já naquela época – década de 50 -, buscava manter-se bem informado e possuía a pilhas, para poder escutar os noticiários nacionais, além de, mesmo morando na Zona Rural, assinar ao jornal “ O Estado de São Paulo”.
Vindo para Bauru, Milton acabou por se enturmar com o pessoal da Juventude Estudantil Católica, onde iniciou sua militância política. Nas eleições para a Presidência da Federação Bauruense Estudantina, em final de 1963, seu colega de classe e militante da Juventude Comunista, Geraldo Scarabotto, conseguiu fazer uma chapa de coalizão, juntando a JEC e o PCB em uma única chapa, que venceu de forma esmagadora as eleições daquele ano, derrotando de forma fragorosa o concorrente .
Tomou posse em solenidade realizada na Câmara Municipal, então localizada na rua Antonio Alves, tendo sucedido a José Ivan Gibin de Mattos, conhecido militante comunista.
No período pré-golpe militar de 1964, como presidente da Federação Bauruense Estudantina – FBE -, encabeçou uma memorável campanha pelo Passe Escolar, conseguindo parcial vitória no final de março daquele ano, com a Prefeitura Municipal e a Empresa Circular Cidade de Bauru, de propriedade de Alexandre Quaggio. Conseguiram que os estudantes de uma forma geral tivessem 25% de desconto nas passagens e a nova medida, aprovada por Decreto do então prefeito Nuno de Assis, era para ter início em 1º de Abril de 1964.
Com o advento do Golpe Militar, revogaram o decreto e tudo continuou como antes e talvez seja este o motivo para que atualmente um professor de rádio-jornalismo, que se diz comunista, afirmar em suas aulas de que em Bauru jamais existiu a luta pelo passe escolar.
Acabou sendo destituído do cargo nos primeiros dias do golpe militar de 1964, por integrantes da famigerada Frente Anti Comunista – FAC -, de triste memória para os democratas brasileiros. Estes elementos, símbolos do totalitarismo invadiram a sede da entidade, então localizada no Edifício Drogadada e destruíram o mobiliário, além do acervo de documentos e biblioteca da entidade. Provavam estes discípulos de Silvio Marques, que não gostavam de preservar a história, pois esta no futuro com certeza os condenaria, como de fato condena. Dota e seus companheiros de direção da entidade, inconformados com a atitude truculenta capitaneada por Kiko Marques, César Capela, Sergio Médice, Mário Bevilaqua e outros, ainda resolveram comparecer na Delegacia de Polícia prestar queixa contra aqueles que consideravam como baderneiros. A sorte é que encontraram um policial amigo, que os alertou da loucura que estavam fazendo, correndo inclusive risco de prisão. Graças a este alerta, Dota e seus companheiros buscaram local para se refugiarem e esperarem a poeira assentar. Foram para a propriedade rural do pai de Milton, e inocentes, achando que a polícia somente prendia durante o dia, passavam a noite na residência de Emilia, irmã de Milton. De manhã, arrumavam a marmita e iam se esconder em algum canto da propriedade. Saad Zogheib Sobrinho, colega de fuga ainda brincava com dona Jacira:
- Se a polícia aparecer, diga que fomos pra “quiabá”!
É que na propriedade existia uma grande plantação de quiabos e era para estes lados que ambos se refugiavam. Retornaram para a cidade, achando que as coisas estavam calmas e em 20.04.1964, Saad acabou preso, permanecendo na Cadeia Pública local por dez dias. Dota, mais uma vez conseguiu se evadir, muito embora um pretenso conhecedor das lutas da esquerda bauruense, tenha publicado recentemente que o mesmo acabou preso em abril de 1964. E aliás, este não foi o único erro cometido por este costumaz falseador da verdade histórica.
Passado o período de perseguição, Dota não esmoreceu e continuou a lutar contra o regime militar instaurado em nossa Pátria. Militante da JEC – Juventude Estudantil Católica – e da JUC – Juventude Universitária Católica -, acabou por ingressar nos quadros da Ação Popular Marxista Leninista-APML. Neste ínterim, foi convidado pelo militante político da ALN, Márcio Leite de Toledo, a adentrar para os quadros da organização criada por Carlos Marighela, que defendia a luta armada e declinou do convite em virtude de ter se casado recentemente com Mary Nair Matheus Dota, sua companheira de lides políticas.
Em 12 de Outubro de 1968, foi preso no Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna – Sp. , tendo tido sua prisão preventiva decretada, permanecendo sessenta dias nas masmorras da ditadura. Esta prisão preventiva de Dota, ao lado de grandes lideranças do ME dos anos 60, teve o dedo de Silvio Marques Júnior, que fez de tudo para que o estudante continuasse preso, como forma de mostrar para Bauru, de que possuía força e prestígio nos altos escalões da Ditadura.
Perambulou por várias prisões do Estado de São Paulo, e teve “habeas-corpus” negado pelo Supremo Tribunal Militar, tendo em vista que o relator do processo considerou Milton e seus companheiros de cárcere, como de alta periculosidade para a Segurança Nacional. O detalhe interessante neste processo é que o relator foi o General Ernesto Geisel, posteriormente Presidente da República durante o período militar.
Acabou por ser libertado em 12.12.1968, vésperas da decretação do AI-5 – Ato Institucional nº 5 -, o que o obrigou a ficar alguns dias foragido, esperando qual seria a reação da repressão e principalmente por que era praxe naquela época, o militante preso oficialmente, acabar por ser libertado e posteriormente preso por organismos paramilitares ou mesmo clandestinamente pela repressão. E nestes casos, lamentavelmente para a história, eram e são dados como desaparecidos.
Depois desta prisão, a perseguição policial sobre si aumentou de intensidade, prejudicando inclusive suas atividades profissionais e acabou sendo forçado a solicitar demissão do cargo de cobrador de seguros do INPS, por conta de sua militância política. Depois de muito tempo, ao consultar os arquivos do INAMPS em busca de documentação para comprovar seu tempo de serviço e adquirir o direito a aposentadoria, acabou por descobrir que no ocaso de sua permanência no Instituto, havia sido promovido à Tesoureiro e que alguém, que não ele, recebeu as importâncias a que teria direito nesta promoção.
Triste sina a deste militante.
Preso, perseguido e surrupiado em seus direitos.
Foi trabalhar como Agente Autônomo de Investimentos, representando uma grande financeira em Bauru e região, e continuava a participar da vida política da cidade. Em 1971, o ex-sargento do Exército Carlos Roberto Pittoli saiu da cadeia, após permanecer mais de dois anos preso e de imediato, conseguiu emprego no escritório de Milton Dota, que continuava a exercitar em sua plenitude a prática da solidariedade revolucionária. Sem sombra de dúvidas, Dota sempre foi uma pessoa extremamente generosa e solidária. Com Mary Nair, sua primeira esposa teve quatro filhos: Milton, Vitor Antonio, André Luiz e Vitorino Neto, e acabou por criar mais duas crianças Edvando e Néia; de seu segundo casamento, com Liliane Martins, tem a filha Giovana.
Voltou a militar politicamente no início dos anos 70, no então MDB e colocava todo o seu tempo disponível a serviço do Partido, procurando amigos, parentes e antigos companheiros de militância política, filiando-os ao Partido, além de realizar atividades no sentido de inserir o velho manda-brasa na sociedade. Participou ativamente da campanha eleitoral de 1972, como cabo eleitoral do candidato à vereador Edison Bastos Gasparini, igualmente perseguido político e que nesta eleição conseguiu resgatar seu mandato na Câmara Municipal. Continuou a militar no MDB, e participou novamente com todo o vigor da histórica campanha de 1974, quando o povo derrotou de forma impiedosa nas urnas os candidatos que defendiam o regime militar. Neste ponto, cabe um pequeno parêntese, para tentarmos buscar decifrar se a postura pacifista no pós-golpe do Partido Comunista Brasileiro não estava correta. Afinal, em dez anos a ditadura militar havia despencado no abismo da impopularidade e a redemocratização da Pátria era questão de tempo. E quantos quadros políticos de primeira ordem à esquerda brasileira não perdeu no confronto armado com os militares?
Em 1976, quando tinha todas as chances de se eleger vereador, acabou sendo impulsionado por pretensos companheiros a disputar a Prefeitura Municipal, acabando por perder uma prévia interna realizada por militantes do MDB, que acabaram por indicá-lo como candidato a vice-prefeito de Antonio Fortunato, em uma das sublegendas do partido. A dobradinha emedebista formada pelo então vereador Roberto Purini e pelo empresário Moussa Tobias foi a mais votada das eleições, entretanto, pela soma dos votos das sublegendas, a ARENA acabou elegendo Oswaldo Sbeghen e Alcides Franciscato para a municipalidade bauruense, mesmo tendo praticamente cinco mil votos a menos que Roberto Purini.
E o pior, a dobradinha Fortunato e Dota teve pífia votação e este mau resultado nas urnas acabou por motivar o então presidente do MDB, Sr. Irineu Bastos a conceder entrevistas na imprensa local defendendo a expulsão dos “comunistas” do Partido, pois estes com seus péssimos resultados eleitorais, haviam tirado a chance do partido eleger o prefeito. Esquecia-se Irineu, que ele próprio havia defendido ardorosamente a candidatura de Fortunato com a alegação de que o mesmo morava na Bela Vista e poderia garantir grande votação naquela região da cidade. Esta pretensa boa votação no Jardim Bela Vista chegou a ser tema de um boletim de campanha da dobradinha Fortunato e Dota, direcionado “Aos moradores do outro lado do rio”.
Acabaram tentando e quase conseguiram marginalizar Dota com seus companheiros dos quadros partidários. Em 1978, voltou a participar ativamente da campanha pelos então chamados candidatos do “campo popular do MDB”, entrando em choque com as lideranças locais. No início de 1979, adentra aos quadros do Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR-8 -, onde desenvolve intensa militância política por todo o Estado de São Paulo. Participa da luta pela anistia política, sendo um dos fundadores do Comitê Brasileiro pela Anistia – secção Bauru – e de outros movimentos populares na cidade e região.
Em 1979, quando da visita do General João Batista de Oliveira Figueiredo à cidade, com a finalidade de inaugurar a Estação Rodoviária, um grupo de estudantes foi preso quando realizava panfletagem no centro da cidade protestando contra a visita do ditador e Dota foi chamado pelos estudantes para comparecer à Delegacia de Polícia Federal, para que na condição de advogado, acompanhasse os depoimentos dos detidos e tentasse suas liberações. Depois de todos os estudantes ouvidos e devidamente fotografados pelas autoridades policiais, para atualização de seus arquivos repressivos e já de madrugada, vem a surpresa, com o escrivão comunicando que era a hora de Dota ser fotografado, pois a Federal de Bauru havia recebido uma relação diretamente de Brasília, de militantes políticos que poderiam organizar protestos contra a presença do ditador e a primeira pessoa relacionada era justamente o advogado dos estudantes. Dota criou uma verdadeira confusão dentro da Polícia Federal, chegando a dizer ao se quisessem uma fotografia dele, com todo o prazer enviaria no dia seguinte uma colorida e autografada, e que jamais passariam por cima das prerrogativas do advogado no exercício da profissão, fotografando-o com placa no peito.
Confusão armada e fotografia não tirada, dirigiu-se ao jornal “Diário de Bauru”, onde relatou os fatos ocorridos ao então editor chefe, Zarcillo Rodrigues Barbosa, que denunciou as prisões ocorridas e a tentativa de indiciar o advogado, em manchete de primeira página.
A OAB, comunicada da ocorrência, depois de processo interno acabou por aprovar a realização de um Ato Público de Desagravo ao Dr. Milton Dota, por entender que o mesmo havia sido ofendido no exercício de suas atividades profissionais. O estranho é que mesmo tendo sido aprovado pela OAB e o ofendido comunicado da decisão, até hoje, em 2006, este ato não foi realizado.
Em 1980, participou ativamente da Campanha contra a Prorrogação de Mandatos de Prefeitos e Vereadores, organizando caravanas de toda a região, que foram até Brasília na tentativa de pressionarem os congressistas a votarem contra a prorrogação. O poder econômico falou mais alto e a proposta da ditadura foi aprovada.
Em 1982, o MR-8 lançou sua pré-candidatura a Deputado Estadual pelo PMDB, que, todavia não foi aprovada pela Convenção Regional do Partido, o que o levou a disputar a eleição de vereador, tendo sido eleito com expressiva votação. Neste mandato como vereador, notabilizou-se na Câmara Municipal pela defesa intransigente que fazia da Administração Municipal, então comandada por José Gualberto Tuga Martins Angerami. Trabalhou ativamente na campanha pelas “Diretas Já” em 1984, e ajudou a organizar a visita de Luis Carlos Prestes, para a realização de um comício pelas Diretas, na Praça República do Líbano, em abril de 1984. Novamente trabalhou na organização de caravanas da região que compareceram a comício na cidade de São Paulo e a votação da emenda Dante de Oliveira, em Brasília.
Em início de 1986 saiu do PMDB, juntamente com o grupo que apoiava o prefeito Tuga Angerami, fundando na cidade de Bauru, o Partido Socialista Brasileiro e mais uma vez, tentou ser candidato a Deputado Estadual, tendo perdido uma prévia realizada na cidade, para o ex-vereador Isaias Milanese Daiben. Nas eleições de 1986, o grupo ligado a Prefeitura realizou campanha para Antonio Ermírio de Moraes, como candidato a Governador; David Capistrano do PT, como candidato a Deputado Federal e Isaias Daiben para Deputado Estadual. Como nem o chefe do executivo se empenhou na campanha dos candidatos a deputado que lançara, estes tiveram fraca votação.
Reeleito vereador em 1988, pelo Partido Socialista Brasileiro, acabou por ser eleito Presidente da Câmara Municipal para o biênio 89/90, sendo em sua gestão elaborada a Lei Orgânica do Município, que dentre outras coisas, implantou a Tribuna Livre nas sessões ordinárias daquela Casa de Leis. Saiu do PSB e foi para o Partido Democrático Trabalhista – PDT -, por onde foi candidato a Deputado Estadual em 1990, não conseguindo se eleger. Neste meio tempo, sofreu um grande impacto emocional, com a morte de sua esposa e companheira de lides políticas, Mary Nair Matheus Dota, em junho de 1989, em acidente automobilístico na cidade de Catalão, Estado de Goiás.
Tentou a reeleição para a vereança em 1992 e não conseguiu a votação necessária, sendo que nestas eleições, conseguiu a maioria dentro do PDT e impôs grande derrota ao vereador João Parreira de Miranda, que almejava ser o candidato a prefeito pela legenda e acabou sendo vencido por Salvador Adelino Afonso, que acabou sendo o candidato em coligação com o PDS, que lançou o jornalista Nilson Costa, como seu candidato à vice.
Novamente em 1996, busca conseguir o retorno para a Câmara Municipal e embora bem votado não conseguiu o objetivo.
Atualmente encontra-se filiado ao PSB e ao que parece o velho guerreiro Dota deve ter pendurado suas chuteiras em contendas eleitorais, mas indubitavelmente é um nome para ser eternamente lembrado, como um daqueles que deram o melhor de si, para que pudéssemos ter liberdade e democracia em nossa Pátria. Apesar de toda a sua luta, aguarda pacientemente que os Governos Federal e Estadual reconheçam os seus direitos de perseguido político.
(Bertolt Brecht)
Nascido aos 31.10.1940 em Avaí – Sp. , no local denominado “Mata Sede”, filho de José Victorino Dota e de dona Ana Pietroforte Dota, mudando-se para Bauru na adolescência com a finalidade principal de concluir os estudos. Em Avaí, acompanhava o pai, que era freqüentador costumaz dos comícios políticos e janista convicto. O velho Vitorino, já naquela época – década de 50 -, buscava manter-se bem informado e possuía a pilhas, para poder escutar os noticiários nacionais, além de, mesmo morando na Zona Rural, assinar ao jornal “ O Estado de São Paulo”.
Vindo para Bauru, Milton acabou por se enturmar com o pessoal da Juventude Estudantil Católica, onde iniciou sua militância política. Nas eleições para a Presidência da Federação Bauruense Estudantina, em final de 1963, seu colega de classe e militante da Juventude Comunista, Geraldo Scarabotto, conseguiu fazer uma chapa de coalizão, juntando a JEC e o PCB em uma única chapa, que venceu de forma esmagadora as eleições daquele ano, derrotando de forma fragorosa o concorrente .
Tomou posse em solenidade realizada na Câmara Municipal, então localizada na rua Antonio Alves, tendo sucedido a José Ivan Gibin de Mattos, conhecido militante comunista.
No período pré-golpe militar de 1964, como presidente da Federação Bauruense Estudantina – FBE -, encabeçou uma memorável campanha pelo Passe Escolar, conseguindo parcial vitória no final de março daquele ano, com a Prefeitura Municipal e a Empresa Circular Cidade de Bauru, de propriedade de Alexandre Quaggio. Conseguiram que os estudantes de uma forma geral tivessem 25% de desconto nas passagens e a nova medida, aprovada por Decreto do então prefeito Nuno de Assis, era para ter início em 1º de Abril de 1964.
Com o advento do Golpe Militar, revogaram o decreto e tudo continuou como antes e talvez seja este o motivo para que atualmente um professor de rádio-jornalismo, que se diz comunista, afirmar em suas aulas de que em Bauru jamais existiu a luta pelo passe escolar.
Acabou sendo destituído do cargo nos primeiros dias do golpe militar de 1964, por integrantes da famigerada Frente Anti Comunista – FAC -, de triste memória para os democratas brasileiros. Estes elementos, símbolos do totalitarismo invadiram a sede da entidade, então localizada no Edifício Drogadada e destruíram o mobiliário, além do acervo de documentos e biblioteca da entidade. Provavam estes discípulos de Silvio Marques, que não gostavam de preservar a história, pois esta no futuro com certeza os condenaria, como de fato condena. Dota e seus companheiros de direção da entidade, inconformados com a atitude truculenta capitaneada por Kiko Marques, César Capela, Sergio Médice, Mário Bevilaqua e outros, ainda resolveram comparecer na Delegacia de Polícia prestar queixa contra aqueles que consideravam como baderneiros. A sorte é que encontraram um policial amigo, que os alertou da loucura que estavam fazendo, correndo inclusive risco de prisão. Graças a este alerta, Dota e seus companheiros buscaram local para se refugiarem e esperarem a poeira assentar. Foram para a propriedade rural do pai de Milton, e inocentes, achando que a polícia somente prendia durante o dia, passavam a noite na residência de Emilia, irmã de Milton. De manhã, arrumavam a marmita e iam se esconder em algum canto da propriedade. Saad Zogheib Sobrinho, colega de fuga ainda brincava com dona Jacira:
- Se a polícia aparecer, diga que fomos pra “quiabá”!
É que na propriedade existia uma grande plantação de quiabos e era para estes lados que ambos se refugiavam. Retornaram para a cidade, achando que as coisas estavam calmas e em 20.04.1964, Saad acabou preso, permanecendo na Cadeia Pública local por dez dias. Dota, mais uma vez conseguiu se evadir, muito embora um pretenso conhecedor das lutas da esquerda bauruense, tenha publicado recentemente que o mesmo acabou preso em abril de 1964. E aliás, este não foi o único erro cometido por este costumaz falseador da verdade histórica.
Passado o período de perseguição, Dota não esmoreceu e continuou a lutar contra o regime militar instaurado em nossa Pátria. Militante da JEC – Juventude Estudantil Católica – e da JUC – Juventude Universitária Católica -, acabou por ingressar nos quadros da Ação Popular Marxista Leninista-APML. Neste ínterim, foi convidado pelo militante político da ALN, Márcio Leite de Toledo, a adentrar para os quadros da organização criada por Carlos Marighela, que defendia a luta armada e declinou do convite em virtude de ter se casado recentemente com Mary Nair Matheus Dota, sua companheira de lides políticas.
Em 12 de Outubro de 1968, foi preso no Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna – Sp. , tendo tido sua prisão preventiva decretada, permanecendo sessenta dias nas masmorras da ditadura. Esta prisão preventiva de Dota, ao lado de grandes lideranças do ME dos anos 60, teve o dedo de Silvio Marques Júnior, que fez de tudo para que o estudante continuasse preso, como forma de mostrar para Bauru, de que possuía força e prestígio nos altos escalões da Ditadura.
Perambulou por várias prisões do Estado de São Paulo, e teve “habeas-corpus” negado pelo Supremo Tribunal Militar, tendo em vista que o relator do processo considerou Milton e seus companheiros de cárcere, como de alta periculosidade para a Segurança Nacional. O detalhe interessante neste processo é que o relator foi o General Ernesto Geisel, posteriormente Presidente da República durante o período militar.
Acabou por ser libertado em 12.12.1968, vésperas da decretação do AI-5 – Ato Institucional nº 5 -, o que o obrigou a ficar alguns dias foragido, esperando qual seria a reação da repressão e principalmente por que era praxe naquela época, o militante preso oficialmente, acabar por ser libertado e posteriormente preso por organismos paramilitares ou mesmo clandestinamente pela repressão. E nestes casos, lamentavelmente para a história, eram e são dados como desaparecidos.
Depois desta prisão, a perseguição policial sobre si aumentou de intensidade, prejudicando inclusive suas atividades profissionais e acabou sendo forçado a solicitar demissão do cargo de cobrador de seguros do INPS, por conta de sua militância política. Depois de muito tempo, ao consultar os arquivos do INAMPS em busca de documentação para comprovar seu tempo de serviço e adquirir o direito a aposentadoria, acabou por descobrir que no ocaso de sua permanência no Instituto, havia sido promovido à Tesoureiro e que alguém, que não ele, recebeu as importâncias a que teria direito nesta promoção.
Triste sina a deste militante.
Preso, perseguido e surrupiado em seus direitos.
Foi trabalhar como Agente Autônomo de Investimentos, representando uma grande financeira em Bauru e região, e continuava a participar da vida política da cidade. Em 1971, o ex-sargento do Exército Carlos Roberto Pittoli saiu da cadeia, após permanecer mais de dois anos preso e de imediato, conseguiu emprego no escritório de Milton Dota, que continuava a exercitar em sua plenitude a prática da solidariedade revolucionária. Sem sombra de dúvidas, Dota sempre foi uma pessoa extremamente generosa e solidária. Com Mary Nair, sua primeira esposa teve quatro filhos: Milton, Vitor Antonio, André Luiz e Vitorino Neto, e acabou por criar mais duas crianças Edvando e Néia; de seu segundo casamento, com Liliane Martins, tem a filha Giovana.
Voltou a militar politicamente no início dos anos 70, no então MDB e colocava todo o seu tempo disponível a serviço do Partido, procurando amigos, parentes e antigos companheiros de militância política, filiando-os ao Partido, além de realizar atividades no sentido de inserir o velho manda-brasa na sociedade. Participou ativamente da campanha eleitoral de 1972, como cabo eleitoral do candidato à vereador Edison Bastos Gasparini, igualmente perseguido político e que nesta eleição conseguiu resgatar seu mandato na Câmara Municipal. Continuou a militar no MDB, e participou novamente com todo o vigor da histórica campanha de 1974, quando o povo derrotou de forma impiedosa nas urnas os candidatos que defendiam o regime militar. Neste ponto, cabe um pequeno parêntese, para tentarmos buscar decifrar se a postura pacifista no pós-golpe do Partido Comunista Brasileiro não estava correta. Afinal, em dez anos a ditadura militar havia despencado no abismo da impopularidade e a redemocratização da Pátria era questão de tempo. E quantos quadros políticos de primeira ordem à esquerda brasileira não perdeu no confronto armado com os militares?
Em 1976, quando tinha todas as chances de se eleger vereador, acabou sendo impulsionado por pretensos companheiros a disputar a Prefeitura Municipal, acabando por perder uma prévia interna realizada por militantes do MDB, que acabaram por indicá-lo como candidato a vice-prefeito de Antonio Fortunato, em uma das sublegendas do partido. A dobradinha emedebista formada pelo então vereador Roberto Purini e pelo empresário Moussa Tobias foi a mais votada das eleições, entretanto, pela soma dos votos das sublegendas, a ARENA acabou elegendo Oswaldo Sbeghen e Alcides Franciscato para a municipalidade bauruense, mesmo tendo praticamente cinco mil votos a menos que Roberto Purini.
E o pior, a dobradinha Fortunato e Dota teve pífia votação e este mau resultado nas urnas acabou por motivar o então presidente do MDB, Sr. Irineu Bastos a conceder entrevistas na imprensa local defendendo a expulsão dos “comunistas” do Partido, pois estes com seus péssimos resultados eleitorais, haviam tirado a chance do partido eleger o prefeito. Esquecia-se Irineu, que ele próprio havia defendido ardorosamente a candidatura de Fortunato com a alegação de que o mesmo morava na Bela Vista e poderia garantir grande votação naquela região da cidade. Esta pretensa boa votação no Jardim Bela Vista chegou a ser tema de um boletim de campanha da dobradinha Fortunato e Dota, direcionado “Aos moradores do outro lado do rio”.
Acabaram tentando e quase conseguiram marginalizar Dota com seus companheiros dos quadros partidários. Em 1978, voltou a participar ativamente da campanha pelos então chamados candidatos do “campo popular do MDB”, entrando em choque com as lideranças locais. No início de 1979, adentra aos quadros do Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR-8 -, onde desenvolve intensa militância política por todo o Estado de São Paulo. Participa da luta pela anistia política, sendo um dos fundadores do Comitê Brasileiro pela Anistia – secção Bauru – e de outros movimentos populares na cidade e região.
Em 1979, quando da visita do General João Batista de Oliveira Figueiredo à cidade, com a finalidade de inaugurar a Estação Rodoviária, um grupo de estudantes foi preso quando realizava panfletagem no centro da cidade protestando contra a visita do ditador e Dota foi chamado pelos estudantes para comparecer à Delegacia de Polícia Federal, para que na condição de advogado, acompanhasse os depoimentos dos detidos e tentasse suas liberações. Depois de todos os estudantes ouvidos e devidamente fotografados pelas autoridades policiais, para atualização de seus arquivos repressivos e já de madrugada, vem a surpresa, com o escrivão comunicando que era a hora de Dota ser fotografado, pois a Federal de Bauru havia recebido uma relação diretamente de Brasília, de militantes políticos que poderiam organizar protestos contra a presença do ditador e a primeira pessoa relacionada era justamente o advogado dos estudantes. Dota criou uma verdadeira confusão dentro da Polícia Federal, chegando a dizer ao se quisessem uma fotografia dele, com todo o prazer enviaria no dia seguinte uma colorida e autografada, e que jamais passariam por cima das prerrogativas do advogado no exercício da profissão, fotografando-o com placa no peito.
Confusão armada e fotografia não tirada, dirigiu-se ao jornal “Diário de Bauru”, onde relatou os fatos ocorridos ao então editor chefe, Zarcillo Rodrigues Barbosa, que denunciou as prisões ocorridas e a tentativa de indiciar o advogado, em manchete de primeira página.
A OAB, comunicada da ocorrência, depois de processo interno acabou por aprovar a realização de um Ato Público de Desagravo ao Dr. Milton Dota, por entender que o mesmo havia sido ofendido no exercício de suas atividades profissionais. O estranho é que mesmo tendo sido aprovado pela OAB e o ofendido comunicado da decisão, até hoje, em 2006, este ato não foi realizado.
Em 1980, participou ativamente da Campanha contra a Prorrogação de Mandatos de Prefeitos e Vereadores, organizando caravanas de toda a região, que foram até Brasília na tentativa de pressionarem os congressistas a votarem contra a prorrogação. O poder econômico falou mais alto e a proposta da ditadura foi aprovada.
Em 1982, o MR-8 lançou sua pré-candidatura a Deputado Estadual pelo PMDB, que, todavia não foi aprovada pela Convenção Regional do Partido, o que o levou a disputar a eleição de vereador, tendo sido eleito com expressiva votação. Neste mandato como vereador, notabilizou-se na Câmara Municipal pela defesa intransigente que fazia da Administração Municipal, então comandada por José Gualberto Tuga Martins Angerami. Trabalhou ativamente na campanha pelas “Diretas Já” em 1984, e ajudou a organizar a visita de Luis Carlos Prestes, para a realização de um comício pelas Diretas, na Praça República do Líbano, em abril de 1984. Novamente trabalhou na organização de caravanas da região que compareceram a comício na cidade de São Paulo e a votação da emenda Dante de Oliveira, em Brasília.
Em início de 1986 saiu do PMDB, juntamente com o grupo que apoiava o prefeito Tuga Angerami, fundando na cidade de Bauru, o Partido Socialista Brasileiro e mais uma vez, tentou ser candidato a Deputado Estadual, tendo perdido uma prévia realizada na cidade, para o ex-vereador Isaias Milanese Daiben. Nas eleições de 1986, o grupo ligado a Prefeitura realizou campanha para Antonio Ermírio de Moraes, como candidato a Governador; David Capistrano do PT, como candidato a Deputado Federal e Isaias Daiben para Deputado Estadual. Como nem o chefe do executivo se empenhou na campanha dos candidatos a deputado que lançara, estes tiveram fraca votação.
Reeleito vereador em 1988, pelo Partido Socialista Brasileiro, acabou por ser eleito Presidente da Câmara Municipal para o biênio 89/90, sendo em sua gestão elaborada a Lei Orgânica do Município, que dentre outras coisas, implantou a Tribuna Livre nas sessões ordinárias daquela Casa de Leis. Saiu do PSB e foi para o Partido Democrático Trabalhista – PDT -, por onde foi candidato a Deputado Estadual em 1990, não conseguindo se eleger. Neste meio tempo, sofreu um grande impacto emocional, com a morte de sua esposa e companheira de lides políticas, Mary Nair Matheus Dota, em junho de 1989, em acidente automobilístico na cidade de Catalão, Estado de Goiás.
Tentou a reeleição para a vereança em 1992 e não conseguiu a votação necessária, sendo que nestas eleições, conseguiu a maioria dentro do PDT e impôs grande derrota ao vereador João Parreira de Miranda, que almejava ser o candidato a prefeito pela legenda e acabou sendo vencido por Salvador Adelino Afonso, que acabou sendo o candidato em coligação com o PDS, que lançou o jornalista Nilson Costa, como seu candidato à vice.
Novamente em 1996, busca conseguir o retorno para a Câmara Municipal e embora bem votado não conseguiu o objetivo.
Atualmente encontra-se filiado ao PSB e ao que parece o velho guerreiro Dota deve ter pendurado suas chuteiras em contendas eleitorais, mas indubitavelmente é um nome para ser eternamente lembrado, como um daqueles que deram o melhor de si, para que pudéssemos ter liberdade e democracia em nossa Pátria. Apesar de toda a sua luta, aguarda pacientemente que os Governos Federal e Estadual reconheçam os seus direitos de perseguido político.
Meu Avô
ResponderExcluirMeu eterno companheiro e pai da minha filha Giovana Vitória Martins Dota.
ResponderExcluirAmigo acima de tudo e um homem que não existe palavras que pudesse descrevê-lo...um grande lutador na batalha da vida...
Um pai herói,um excepcional amigo,um gigante nas batalhas do cotidiano,simplesmente um grande homem e meu eterno amor.
Oi, eu gostaria de saber mais sobre o Geraldo Scarabotto, tem alguma ideia de como posso encontrar informações? É meu falecido avô. Obrigada
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